Aconselhando a Amada Igreja

Bases doutrinárias para a vida de uma Igreja cristã

Textos Base: Filipenses 4.1-9.

Introdução

    Filipos era uma igreja muito querida por Paulo. Foi uma igreja que nasceu num parto de dor, mas que trouxe muitas alegrias. Foi a igreja que se associou com ele desde o início para socorrê-lo em suas necessidades, sempre presente e solidária.

    Em nosso texto, Paulo dá seus últimos conselhos a essa igreja tão querida, a quem Paulo chama de “minha alegria e coroa”. No grego há dois termos diferentes para a palavra coroa: diadema significa “coroa real” e stefanos, “a coroa do atleta” que saía vitorioso dos jogos gregos. Esta era uma coroa de louros que o atleta recebia sob os aplausos da multidão que lotava o estádio. Ganhar esta coroa era a ambição suprema do atleta. Mas, também, stefanos era a coroa com que se coroava aos hóspedes quando participavam de um banquete nas grandes celebrações. Esta última palavra é a que Paulo usa neste texto.

    Desta forma, Paulo está dizendo que os filipenses são a coroa de todas suas fadigas, esforços e empenhos. Ele era o atleta e eles a sua coroa. É como se, no banquete final de Deus, os filipenses seriam a sua coroa festiva. Ralph Martin(1) diz que o ambiente escatológico de Filipenses 3.20,21 contribui para a bela metáfora de um prêmio celestial a ser concedido a Paulo por seu trabalho pastoral.

    Numa recapitulação de sua convivência com a Igreja, o Apóstolo deixa conselhos divinos valiosos para a Igreja de Cristo hoje.

 

1) É imperativo manter-se firmes no Senhor – 4.1.

    Paulo dá continuidade ao seu raciocínio. Para ele, os crentes são cidadãos do céu, devem ter coragem na terra para serem firmes. Na igreja de Filipos havia perigos internos e externos: Ataque por falsos mestres e por falta de comunhão. A heresia e a desarmonia atacavam a igreja. Existiam problemas internos e externos; doutrinários e relacionais. A igreja estava sendo atacada por fora e por dentro. Diante desses perigos, Paulo exorta a igreja a permanecer firme no Senhor.

    A palavra grega para “estar firmes” é stekete. Essa palavra era aplicada ao soldado que permanecia firme em seu ímpeto na batalha frente a um inimigo que queria superá-lo. — Em vez de dar atenção aos falsos mestres ou se entregar às desavenças internas, a igreja deveria colocar a sua confiança no Senhor Jesus.

    A igreja deve permanecer firme no Senhor por causa de sua herança (1.6) e vocação celestial (3.20,21). Ela deve permanecer firme a despeito da hostilidade dos legalistas (3.2) e dos libertinos (3.18,19). Deve permanecer firme diante dos sinais de desarmonia nos relacionamentos (2.3,4) e dos desacordos de pensamento (4.2).

 

2) Harmonia nos relacionamentos – 4.2,3.

    Os problemas de relacionamento foi outro ponto trabalhado pelo Apóstolo (4.2,3). Problemas entre irmãos não era um problema pequeno para o apóstolo.

    Evódia e Síntique eram duas irmãs que ocupavam posição de liderança na igreja, que havia se esforçado com Paulo no evangelho e cujos nomes estavam escrito no livro da vida, mas, agora, estavam em desacordo na igreja. Elas tinham nomes bonitos (Evódia significa “doce fragrância” e Síntique “boa sorte”), mas estavam vivendo de maneira reprovável.

    Estas duas irmãs estavam lutando por causas pessoais, em vez de buscar os interesses de Cristo e da igreja. Estavam colocando o “eu” acima do outro. Em vez de seguir o exemplo de Cristo e de seus consagrados servos (2.5,17,20,30) estavam copiando aqueles que trabalhavam por vanglória e partidarismo (2.3,4). F. F. Bruce(2) diz que o desacordo entre essas duas irmãs, não importando sua natureza, representava uma ameaça à unidade da igreja, como um todo.

    O Apóstolo requereu a ajuda de um líder da igreja, que ele dá o nome, para auxiliá-las a construir pontes em vez de cavar abismos. Precisamos exercer na igreja o ministério da reconciliação em vez de jogar uma pessoa contra a outra. Precisamos aproximar as pessoas em vez de afastá-las. A igreja é um corpo e cada membro desse corpo deve trabalhar em harmonia com os demais para a edificação de todos.

    A exortação paulina é para que as irmãs concordem no Senhor. Não podemos estar unidos a Cristo e desunidos com os irmãos. Não há comunhão vertical sem comunhão horizontal. A lealdade mútua é fruto da lealdade a Cristo. A irmandade humana é impossível sem o senhorio de Cristo. Ninguém pode estar em paz com Deus e em desavença com seus irmãos. Por isso, a desunião dos crentes num mundo fragmentado é um escândalo.

    J. A. Motyer, comentando esta passagem bíblica, enumera algumas razões pelas quais os crentes devem viver unidos:

Em primeiro lugar, a desarmonia é contrária ao sentimento do apóstolo (4.1). Em segundo lugar, a desarmonia é contrária à fraternidade cristã (4.1). Em terceiro lugar, a desarmonia é contrária à natureza da igreja (4.3). A igreja deve ser marcada pelo trabalho conjunto, pelo auxílio recíproco e pela esperança futura. Há uma realidade celestial acerca da igreja. O nome dos crentes está escrito no livro da vida e lá no céu não há divisão. A igreja na terra deve ser uma réplica da igreja do céu. A igreja que seremos deve ensinar a igreja que somos. Está contra a natureza da igreja confessar a unidade no céu e praticar desunião na terra. Todos os crentes, lavados no sangue do Cordeiro têm seus nomes escritos no livro da vida e serão introduzidos na cidade santa (Lc 10.17-20; Hb 12.22,23; Ap 3.5; 20.11-15).

 

3) Algumas marcas distintivas – 4.4.

    A alegria é uma marca distintiva para Paulo. Ela coloca a alegria como uma ordenança e não uma opção. Para Paulo ser alegre é um mandamento e não uma recomendação. Deixar de ser alegre é uma desobediência a uma expressa ordem de Deus. O evangelho trouxe alegria, o reino de Deus é alegria, o fruto do Espírito é alegria e a ordem de Deus é: “alegrai-vos”. — A alegria é ultra-circunstancial. Como a vida é um mosaico onde não faltam as cores escuras do sofrimento, nossa alegria não pode depender das circunstâncias. Na verdade, nossa alegria não é ausência de problemas.

    Paulo ainda diz que nossa alegria é Cristocêntrica. Nossa alegria é uma pessoa e não ausência de problemas. Quem tem Jesus experimenta essa verdadeira alegria. Quem não tem Jesus pode ter momentos de alegria, mas não a alegria verdadeira.

    A moderação é outra marca distintiva. O apóstolo fala à igreja sobre a necessidade de cuidarmos das nossas atitudes internas e das nossas reações externas. A moderação tem a ver com o controle do temperamento. Um crente não pode ser uma pessoa sem domínio próprio.

    O termo grego para moderação é epieikeia. Essa palavra foi usada por Aristóteles para descrever aquilo que não apenas é justo, porém, melhor ainda do que a justiça. William Barclay diz que o homem que tem “moderação” é aquele que sabe quando não deve aplicar a letra estrita da lei, quando deve deixar a justiça e introduzir a misericórdia.

    Epieikeia é a qualidade do homem que sabe que as leis e prescrições não são a última palavra. Jesus não aplicou a letra da lei em relação à mulher apanhada em flagrante adultério. Ele foi além da justiça. Ele exerceu a misericórdia. Ralph Martin escreve: “Moderação é uma disposição amável e honesta para com outras pessoas, a despeito de suas faltas, disposição esta inspirada na confiança que os crentes têm em que após o sofrimento terreno virá a glória celeste”.

    Uma pessoa moderada é aquela que abre mão da retaliação quando você é ameaçado ou provado por causa da sua fé. William Hendriksen corretamente afirma: “A verdadeira bem-aventurança não pode ser alcançada pela pessoa que rigorosamente insiste em seus direitos pessoais. Cristão é aquele que crê ser preferível sofrer a injustiça a cometer a injustiça (1Co 6.7)”.

    Paulo diz que devemos ser moderados porque o Senhor está perto. O advérbio grego engys pode significar “perto” quanto a lugar ou quanto a tempo. Devemos ser moderados porque o Senhor virá para defender a nossa causa. Paulo diz: “Perto está o Senhor(4.3).

Conclusão – 4.6-9.

    Ouço muitas pessoas dizerem que dentre as aflições do novo século, a ansiedade está presente. Contudo, este é um mal antigo, e desde que o homem conheceu o pecado que se sente ansioso. Paulo diz que Deus nos abençoou com um meio de graça que anula a ansiedade: a oração. “Não andeis ansiosos...; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração...(4.6).

    De acordo com a Organização Mundial de Saúde, mais de cinqüenta por cento das pessoas que passam pelos hospitais são vítimas da ansiedade. A ansiedade atinge adultos e crianças, doutores e analfabetos, religiosos e ateus.

    Deus não apenas dá uma ordem: “Não andeis ansiosos”, mas oferece a solução. Não apenas diagnostica a doença, mas também oferece o remédio. Se a ansiedade é uma doença, a oração é o remédio. William Hendriksen diz que o antídoto adequado para a ansiedade é abrir efusivamente o coração a Deus. Pela oração, a paz de Deus ocupa o lugar que antes a ansiedade tomava conta (4.7).

    O apóstolo destaca três verdades importantes sobre a paz: 1. A paz que recebemos é uma paz divina e não humanas (4.7); 2. A paz de Deus transcende a compreensão humana (4.7); 3. A paz de Deus (guardará) é uma sentinela celestial ao nosso redor (4.7).

    O conhecimento recebido de Deus pelo apóstolo, bem como seus frutos em bons pensamentos, deve resultar como conteúdo de suas vidas práticas. A mente guardada pelos bons pensamentos e doutrinada com a verdade de Deus gerará uma vida aprovada com Deus e terá assim a sua presença.

 

Bibliografia

Ilumina Gold – Biblioteca Digital Animada – Sociedade Bíblica do Brasil. Introdução a Atos dos Apóstolos.

Biblioteca Digital da Bíblia LIBRONIX – Sociedade Bíblica do Brasil.

Sociedade Bíblica do Brasil. (2003; 2005). Almeida Revista e Atualizada - Com Números de Strong. Sociedade Bíblica do Brasil.

Sociedade Bíblica do Brasil. (2000; 2005). Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Sociedade Bíblica do Brasil.

Black, M., Martini, C. M., Metzger, B. M., & Wikgren, A. (1993, c1979). The Greek New Testament (electronic ed. of the 4th ed.). Federal Republic of Germany: United Bible Societies.

F. Davidson. O Novo Comentário da Bíblia. Ed. Vida Nova. São Paulo: 1997.

Marthin. R. The Epistle of Paul to the Philippians: An Introduction and Commentary.

F.F. Bruce, Filipenses, Florida, Editora Vida, 1992.

 Notas:________________________________________________________________________________________

(1) Marthin. R. The Epistle of Paul to the Philippians: An Introduction and Commentary.

(2) F.F. Bruce, Filipenses, Florida, Editora Vida, 1992.

Compilação


Curiosidades sobre a Cidade de Filipos

Antiga Estrada Pavimentada Romana (caminho para Filipos e Tessalônica)

 

Atos 16:12 - e dali, a Filipos, cidade da Macedônia, primeira do distrito e colônia. Nesta cidade, permanecemos alguns dias.

 

Atos 17:1 - Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus.

(Ruinas do centro metropolitano de Filipos)

Filipos era uma colônia que estava localizada no Caminho Egnatan, que era a principal estrada que cruzava a Macedônia. Por ser uma cidade cosmopolita, Filipos misturava tradições gregas e latinas.

 

 

(Modelo de Prisão em Filipos)

Aqui vemos uma prisão do tipo câmara em Filipos. Na antiguidade as prisões não eram destinadas a longos períodos de punição. Eram quartos escuros onde os prisioneiros eram mantidos até que pudessem ser julgados ou castigados de outra forma. Os prisioneiros eram acorrentados durante o dia. Durante à noite, seus pés eram imobilizados para maior segurança (Atos 16.24).

(Ruina do mercado de Filipos)

O mercado era uma área central pública em Filipos. Mercadores faziam seus negócios aqui e os espaços abertos eram usados para reuniões públicas. Os magistrados da cidade também tinham seu lugar no mercado para ouvir os casos. Os donos da garota possessa estavam furiosos com Paulo por tê-la curado e por não poderem mais ganhar dinheiro com ela. Eles acusaram Paulo e Silas de serem perigosos para a ordem social romana. Embora Paulo e Silas não tenham recebido julgamento, os magistrados tinham poder de bater nos prisioneiros em favor da ordem ou para interrogá-los.