Banalização da Família

24/01/2012 09:11

Banalização da Família

Uma comparação bíblica com a atualização do pensamento social sobre o conceito de família

 

Introdução

 

É discrepante colocar em paralelo ou tentar uniformizar o conceito família na bíblia do atual pensamento social. Veremos que tal conceito que imperou na sociedade, sob influência do pensamento cristão, sofreu atualizações que o fizeram destoar completamente de sua origem. Uns chamam de evolução, outros explicam sem uma soma de interesses, enquanto que a própria sociedade ainda vive os conflitos de uma miscigenação impossível de culturas: a maior e predominante sobre as várias menores sub-existentes. Este é o caso do cristianismo na atual sociedade.

Um estudo motivado pela investigação de casais heterossexuais que escolheram não ter filhos, como também a caracterização do casamento contemporâneo e a carreira profissional da mulher envolvida com a escolha em não ter filhos e as críticas sofridas pela sua opção, nos conduzem pela proposta deste artigo.

Barbieri afirma que devido aos movimentos feministas, a mulher alcançou igualdade política e social em relação aos homens, e a criação da pílula anticoncepcional proporcionou à mulher a possibilidade de escolha de ter ou não ter filhos. Porém a mulher contemporânea acaba exercendo múltiplas tarefas, a de profissional, a de dona-de-casa dentre outros. Estas conquistas por um lado lhe trouxeram opções de escolhas, mas trouxeram uma exigência em obter perfeição em todos os seus papéis, havendo cobrança de alto desempenho, onde não é possível ser somente mulher, mas é preciso ser uma super mulher. Portanto, a mulher contemporânea, em suas conquistas sóciopolíticas, acabou adquirindo uma nova maneira de pensar e agir (BARBIERI, 2008).

A Bíblia, porém, propõe como papel principal na figura feminina o de completar uma necessidade autoexistente no homem, a necessidade de companhia. Deus, ao criar o homem, fê-lo com esta necessidade, como é expresso nas palavras divinas em reconhecer que “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2.18). O homem precisava se “auxílio” e este deveria ser próprio para ele, idôneo. O homem e a mulher nasceram para se completar, com fome de companhia como seres gregários que são. E tal finalidade também nasce com a idéia de ininterruptibilidade, ou seja, não poderia ser interrompida — essa é a razão do imperativo divino quando diz: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.28); e o próprio Filho de Deus completa o imperativo dizendo “De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19.6).

Porém, a atualização da idéia cristã de casamento se deteriorou com o tempo, vindo este a tomar uma nova forma. “Conformando-se com este século”, portanto, temos que de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que diz respeito à Síntese de Indicadores Sociais de 2008, as mulheres mostram nos últimos anos muitas transformações no seu comportamento social. A diminuição da fecundidade, o aumento na participação no mercado de trabalho, o reforço no rendimento familiar e o avanço da escolaridade são aspectos essenciais para dimensionar seu papel na sociedade brasileira.

Por meio destas considerações, a Síntese de Indicadores Sociais, acrescenta que estudos a respeito dos tipos de organizações familiares destacam que as famílias compostas por casais sem filhos e ambos com rendimento é um tipo-modelo que está cada vez mais comum, principalmente nas sociedades contemporâneas. Esta tipologia intitulada Duplo Ingresso e Nenhuma Criança (DINC) consistem num arranjo familiar em que o casal tem mais recursos para se dedicar ao trabalho e ao lazer.

 

Casamento do século XXI

 

      Segundo Ceneide M. de O. Cerveny, o alicerce no qual se constitui uma nova família, muitas vezes é construída por desejos inconscientes. O casamento é uma das maneiras que as pessoas têm de constituir vínculos duradouros, é o nascimento emocional da família que permite a construção gradual de um vínculo de apego e cumplicidade (CERVENY, 1997). Disso podemos deduzir a necessidade gregária do ser humano presente ainda na atual sociedade, mas desconstruída do padrão cristão. Essa desconstrução é espelhada por RIOS e GOMES (2009) ao explicar que a sociedade contemporânea passou por diversas transformações na família, no casamento, do mesmo modo como nos conceitos de maternidade e paternidade. Sexualidade e procriação não se complementam mais, de tal modo como maternidade e feminilidade não são basicamente observadas como sinônimos. Esse panorama de mudanças trouxe complexidades às relações familiares, reunido aos progressos da medicina, possibilitou além de uma sexualidade sem procriação, uma procriação sem sexualidade.

      O resultado atualizado deste conjunto de realidades trouxe, conforme Luci Helena Baraldo Mansur, que:

“A família tornou-se uma instituição multifacetada, [...] havendo além da família convencional, outros grupos familiares com peso significativo na sociedade brasileira, como os casados sem filhos e as famílias unipessoais” (MANSUR, 2003, p. 39).

 

      RIOS e GOMES (2009) complementam este resultado dizendo que o casamento contemporâneo não tem a finalidade exclusiva de procriação, conforme a ordem divina de Gênesis 1.28 que diz: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra”. Tal fato foi possível em decorrência das transformações que foram acontecendo na trajetória do padrão tradicional de família para as novas configurações, onde é possível observar variados desejos, que incluem a escolha espontânea por não ter filhos.

 

Gerar filhos?

 

      É certo que já ouvimos falar de capitalismo: sociedades capitalistas, país capitalista, etc. Hoje, o mundo é capitalista. O conceito econômico-financeiro rege as decisões mundiais. Os valores humanos deixaram de ser “humanos” para se tornar “economicamente viável”. Deste modo, conceitos éticos e morais de uma sociedade (mundial?) recebe uma variada e nova gama de valores ético-financeiros a luz da economia. Estaria o ser humano no topo desta pirâmide? A perpetuidade de uma geração, a valorização do “nome da família”, estas e outras coisas que compunham o conceito de sociedade, se perdem diante da nova moeda do valor capitalista.     

      Segundo Thornton (1989 apud PAPALIA; OLDS, 2000, p. 424), “quando vocês terão um filho? Essa pergunta é ouvida com menos freqüência nos dias de hoje, à medida que as atitudes da sociedade se afastam da crença de que todos os casais que podem ter filhos devem tê-los.

 

      Alguns casais decidem que nunca terão filhos e fazem essa decisão antes mesmo do casamento, já outros casais adiam a concepção até chegar a hora certa de ter filhos, até decidirem que a ocasião certa não chegará nunca. Outros casais investem seu tempo na carreira profissional, ou preferem ter convivência com adultos e sentem que não seriam bons pais. Alguns casais desejam manter a intimidade da lua–de–mel. E outros preferem ter a liberdade para viajar ou tomar decisões sem precisar refletir (PAPALIA; OLDS, 2000).

      O “filho” na visão bíblica ocupa um lugar de relevância na sociedade cristã. Conforme o Salmo 127.3, os filhos são uma herança direta de Deus representando, assim, a aprovação divina sobre a sociedade. “Herança do SENHOR são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão”, e ainda afirma que a saúde da vida familiar, bem como sua prosperidade, pertencem às famílias que cumprem por receber esta “herança divina” (Sl 127.5).

    Em nossa atualidade, afirmam Beach, Campbell e Townes (1982 apud PAPALIA; OLDS, 2000, p. 424) que: “Algumas pessoas não querem ter o considerável ônus financeiro de ter filhos”. Uma forte representação da influencia do capitalismo no pensamento sociofamiliar. Psicanaliticamente, seria correto afirmar que há um sentimento de “egoísmo” no pensamento deste ser social, que passa a ver a geração de uma criança como uma investimento econômico e não mais como ser humano, ou mesmo o sentimento de perpetuidade da espécie (acredita-se) inerente a qualquer ser humano.

      Outra autora que avaliou os gastos que uma criança ocasiona foi a psicanalista e economista Corine Maier, autora do livro intitulado Sem filhos: 40 razões para você não ter. Para Maier (2008, p. 65):

Um filho custa uma fortuna. Está entre as compras mais caras que o consumidor médio pode fazer em sua vida. Em matéria de dinheiro, custa mais caro que um carro de luxo do último tipo, um cruzeiro ao redor do mundo, um apartamento de quarto e sala em Paris.

 

      Bauman (2004, p. 60) por meio dessas considerações complementa:

O custo total tende a crescer com o tempo, e seu volume não pode ser fixado de antemão nem estimado com algum grau de certeza. Num mundo que não oferece mais planos de carreira e empregos estáveis, assinar um contrato de hipoteca com prestações de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanças, expor-se a um nível de risco atipicamente elevado e a uma fonte prolífica de ansiedade e medo. É provável que se pense duas vezes antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem óbvios os riscos envolvidos.

 

      Nos dias atuais ter filhos é uma questão de escolha fato que gera ansiedade. Ter filhos ou não é comprovadamente uma decisão com grandes consequências e de maior alcance que existe. Ter filhos é cuidar de outro ser mais fraco e dependente, diminuir os desejos pessoais, investir menos tempo na carreira, aceitar o compromisso de lealdade por tempo indeterminado.

      São compromissos que se chocam com a política de vida do líquido mundo contemporâneo, que muitas pessoas evitam quase sempre com fervor. O período da modernidade líquida em que se vive é um mundo cheio de sinais confusos, que tende a mudar com rapidez e de forma inesperada tornando frágeis os vínculos humanos (BAUMAN, 2004).

 

Dados científicos

 

      Para que as opiniões e dados aqui coletados não sejam visualizados apenas do campo filosófico, além das referências citadas, há o aparato da pesquisa científica realizada para estudar quais são as motivações de casais heterossexuais pela escolha em não ter filhos, como também caracterizar o casamento na contemporaneidade; além disso, foi investigado se a carreira profissional da mulher está envolvida na opção pela não-maternidade, como também foi observado se os casais sofrem críticas por optarem não ter filhos. Portanto, a pesquisa qualitativa mostrou-se mais apropriada para atender os objetivos deste estudo. “A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares, [...] trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes [...]” (MINAYO, 2008 p.21).

      Participaram da pesquisa seis casais que foram selecionados pelos seguintes critérios: casais heterossexuais escolhidos por conveniência que optaram não ter filhos até o momento da pesquisa, casados, ou em união estável. Os casais selecionados para colaborar com a pesquisa foram contatados por telefone e convidados a participar. As entrevistas foram realizadas mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, com as devidas orientações. O sigilo da identidade dos participantes foi garantido, prevenindo quaisquer riscos para os mesmos. As entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas, sem qualquer alteração do conteúdo original. A análise dos dados seguiu todos os procedimentos éticos, onde foi utilizada a técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2000). Esta se define como um conjunto de técnicas de análise das comunicações pretendendo obter, por processos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens.

 

O processo

     

      Por meio da análise de conteúdo das entrevistas foram elaboradas oito categorias. No tema que investigou porque os casais decidiram não ter filhos e quais foram suas principais motivações, foram formadas as seguintes categorias: opção, formação de um ser humano e falta de confiança na maternidade.     

      Fica evidente que com o passar dos anos, a tradição de casar e ter filhos foi se alterando, atualmente a mulher tem o direito de decidir o que é melhor para si, podendo escolher ser ou não ser mãe. De acordo com Mansur (2003) a mulher é um ser histórico dotado da aptidão de simbolizar, e a vontade de ser mãe ou não é um fenômeno bastante complexo. Assim torna-se perfeitamente aceitável que a mulher seja normal sem ser mãe e que o amor materno como todo sentimento humano seja incerto, frágil e imperfeito.

      A categoria formação de um ser humano expressa a preocupação dos casais entrevistados em relação à educação, à criação, ou seja, à formação de um ser humano, que além do desejo da maternidade e da paternidade deve levar em consideração outros fatores:

“Na verdade assim ó ... é que eu acho que ter filhos não é uma questão só de desejo de maternidade, de paternidade ... eu acho que tem muito mais coisa envolvida. A criação é muito difícil, eu acho difícil mesmo, não é fácil criar um filho, porque tudo a gente, hoje a gente sabe de muita coisa de que tudo pode influenciar, uma criança né, pode influenciar, pode determinar a personalidade, pode determinar futuros traumas então é complicado eu acho assim.” (Casal B)

“Eu não me sinto assim preparado, acho que pra mim filhos é ... eu tenho uma preocupação eu tenho uma é ... eu penso assim que você ta formando uma pessoa (silêncio) desde o ambiente tudo né ... eu acho que tudo tem que ta muito bem preparado, não sei se nada ver ... mas uma vez tinham mais coragem né.” (Casal F)

 

      Para Maldonado (2004) formar e educar os filhos são tarefas muito complexas, pois cada etapa do desenvolvimento infantil é um novo desafio à aptidão e a flexibilidade dos pais, pelas exigências em termos de mudanças de comportamentos e de disposição para atender às necessidades e as solicitações dos filhos. Para os pais a educação está na possibilidade de crescerem juntos com as crianças, acompanhando a trajetória que vai da dependência do bebê até a independência dos filhos quando adultos.

      Cia, Pamplin e Prette (2006) desenvolveram um estudo com 110 crianças com o objetivo de comparar o envolvimento dos pais com os filhos com o repertório de habilidades sociais e de problemas de comportamento das crianças, segundo essa pesquisa fica evidente a importância da comunicação entre pais e filhos, bem como a participação dos pais para um desenvolvimento infantil saudável.

      Os casais pesquisados demonstraram preocupação em estarem presentes, acompanhando a criação dos filhos, para eles a presença dos pais é fundamental para o crescimento saudável de um filho.

      Na categoria falta de confiança na maternidade podem ser percebidas muitas duvidas sobre a maternidade, motivo este que levou os casais entrevistados optarem por permanecerem sem filhos. De acordo com Maldonado (2004) é preciso levar em consideração as dificuldades da vida moderna. Há alguns anos, a arte de educar e criar os filhos era simplificada pela existência de normas e tradições inquestionáveis. Hoje as maneiras de criar os filhos são intensamente discutidas, onde os pais estão expostos a uma massa de informações em revistas, jornais, livros, sendo que estas informações são com frequências obscuras ou até contraditórias, inúmeras são as duvidas e questionamentos que passam pela cabeça dos pais, que se sentem inseguros e indefinidos.

 

“Até a confiança na maternidade, ela não tem confiança, que vai ser uma excelente mãe.” (Casal E)

“Se eu não consigo defini pra mim o que eu quero pra mim como que eu vou dar atenção pra outra pessoa entendeu, eu acho que a gente tem que faze o melhor pro filho e eu não me sinto em condições de da o melhor.” (Casal E)

 

      Ao pesquisar se os casais sofrem críticas pela opção em não ter filhos, pode-se perceber a seguinte categoria: Pressão familiar, esta categoria representa as cobranças e curiosidades familiares que as mulheres sofrem, sendo que estas cobranças não são vivenciadas pelos homens, mas para as mulheres é bastante intenso:

“Não seria criticas assim mais cobrança né, crítica, crítica em si não mais seria cobrança mesmo.” (Casal D)

“Só cobrança familiar dos meus pais, os pais do meu marido não, mas os meus querem e eles pedem bastante, eles queriam que nós fosse morar perto deles e ter um filhinho perto deles, mas não da.” (Casal E)

 

      As mulheres que escolhem permanecer sem filhos podem passar por vários tipos de pressão, pois ainda para a maioria das pessoas é estranho que uma mulher não deseje ser mãe (MANSUR, 2003). Os casais relataram que não sofrem críticas por sua opção, mas que apenas são questionados, já que são diferentes nesse aspecto em comparação com a maioria dos outros casais:

“Criticas, não, não tipo crítica ou discriminação, alguém assim já comento assim vocês podem ter, vocês tem condições de ter e podem ter né, mas não chega a ser um problema né, então é natural né, acho que é normal assim como eu também quando um casal não tem filhos, também a gente fica curioso pra saber mas é curiosidade.” (Casal A)

 

      Para Mansur (2003), mesmo que seja uma escolha permanecer sem filhos, essa decisão expressa trocar um potencial por viver uma diferença em relação ao grupo das mulheres-mães. Essa experiência abrange questões relevantes e pode mobilizar emocionalmente qualquer mulher, mas isso não pode ser considerado como anormalidade ou ilegalidade. É necessário que a não-maternidade seja vista como um fenômeno multidimensional, para assim desprover-se de julgamentos carregados de preconceitos, compreender e aceitar que as mulheres podem ter projetos variados e satisfatórios, já que a sociedade apresenta outras opções que vai além da maternidade. — É neste caso que vemos a desconstrução do antigo conceito patriarcal cristão para a perspectiva atualizada da neo sociedade. No sistema cristão, os filhos representam para as famílias uma aprovação da graça divina sobre o lar, sobre a madre, sobre a perpetuidade do nome e da posteridade. Era também símbolo de pacto entre Deus e as famílias, como se vê em Abraão, Isaque, Jacó, José e etc. Os filhos também representavam a Aliança entre Deus e seu povo. Era temida a idéia de que uma geração não pudesse gerar filhos por um ventre interrompido, o que simbolizava a maldição divina sobre o lar (embora nem todos os casos se adequasse a esta visão mais mística do que comprobatória).

      A mulher pós-moderna é um ser em constante construção, seguindo novas maneiras frente ao mundo social, desde as suas conquistas da entrada ao mercado de trabalho, do acesso aos estudos, como também da escolha em procriar ou não (OLIVEIRA, 2007).

      Com as mudanças ocorridas o casamento contemporâneo não é unicamente com o objetivo de ter filhos, os casais entrevistados demonstraram segurança nas suas escolhas, eles optaram em dedicar-se um ao outro como também na profissão.

      Na categoria carreira profissional manifesta as outras possibilidades oferecidas ao casal além da maternidade, paternidade principalmente as apresentadas a mulher. Todas as mulheres que participaram desta pesquisa tem como prioridade principal a profissão, hoje elas podem exercer o direito da escolha sobre o que elas querem para si mesmas, esse traço foi bastante marcante em todas as mulheres entrevistadas nesta pesquisa, elas se impõe a metas profissionais, as quais desejam alcançar:

“Quando nós casamos eu queria estudar depois terminei a faculdade e comecei a pós e sempre um motivo levou o outro assim já tivemos vontade de ter filhos e já desistimos também (risos) sempre que pensávamos em ter a gente achava um motivo pra não ter, mas mais por causa dos meus estudos por causa da faculdade da pós e se eu tivesse um filho já seria totalmente diferente, tipo eu não poderia trabalhar.” (Casal D)

“A gente não que porque senão a minha esposa ia ter um filho pra cuidar e a profissão né com duas coisas, talvez seja por isso que a gente não queira [pela profissão], uma vez que tu decides ter um filho tu tens que abrir mão um pouquinho né.” (Casal E)

 

      A profissão significa uma conquista e uma independência financeira. A sociedade moderna tem uma exigência em inserir os indivíduos no mercado de trabalho, valorizando ao máximo aquele que tem como projeto de vida a profissão e o progresso financeiro. Deste modo a maternidade está sendo posta para um momento futuro, mas isso não que dizer que a maternidade perdeu a importância na sociedade, mas o que se nota é que a mulher pós-moderna busca primeiramente uma autonomia econômica (OLIVEIRA, 2007).

      Maneiras e desejos individuais são o que se manifestam atualmente, hoje as mulheres tem acesso à formação profissional e a outras atividades que anteriormente eram unicamente masculinas, afastando o que antes era aceito como o ideal da mulher no lar, atualmente as mulheres podem desempenhar das diversas oportunidades: casamento, profissão, estudos, onde se torna aceitável que a mulher exerça da sua capacidade criadora para inventar a si própria (MANSUR, 2003).

      Não é surpresa a queda da fecundidade, é até um dado esperado, dados estes que indicam transformações no comportamento do casal, que refletem na melhora da renda da população, a qualidade do vínculo a dois. Fica evidente que hoje em dia não é a disciplina, ou o controle externo, que está na base do comportamento amoroso. Além disso, as pessoas optam pela vida a dois, e isso não se dá hoje por nenhuma influência de costumes civis ou religiosos (FORBES, 2008).

      Os casais pesquisados têm um estilo de vida com muitas tarefas diárias: profissão, casamento, estudos, isso geralmente pode implicar em uma diminuição nos momentos de intimidade do casal, redução para momentos de lazer e menor disponibilidade para si próprio, os resultados desta pesquisa mostra que os casais utilizam estratégias para lidar com esses fatores buscando preservar o vínculo afetivo a dois, dedicando-se um ao outro. Pode-se dizer que eles buscam conciliar a profissão e a satisfação conjugal, isso impulsionou os casais optarem viver sem a presença de filhos.

 

A guisa de conclusão

 

      Os casais que participaram deste estudo demonstraram grandes preocupações e dúvidas a respeito da educação dos filhos, evidenciando não se sentirem seguros, e, além disso, não tendo disponibilidade e tempo que uma criança necessita. Corroboraram que a decisão em não ter filhos vai além de apenas realizar desejos pessoais, é uma decisão difícil que envolve muitos fatores; inclusive ter que abandonar o sonho da paternidade, como foi o caso dos homens entrevistados pela dificuldade em educar um filho e principalmente por não estar presente no crescimento dos filhos.

      Devido a estes fatores, a principal motivação dos casais em não ter filhos foi a difícil tarefa de educar as crianças, referindo que com a chegada dos filhos tudo muda.  Hoje em dia são os pais que tem que se adaptar com a chegada do filho, onde está cada vez mais difícil repassar valores às crianças e aos adolescentes. Para Rogers (1991) a juventude está intimamente insegura quanto aos seus valores, quem sabe seja pelo fato de que os sujeitos contemporâneos são acometidos por todos os lados por uma massa de informações divergentes e contraditórias.

      Concordando com a idéia de Volpi e Volpi (2008), as fases do desenvolvimento emocional de uma criança, que ocorrem desde a sua concepção até a adolescência, é extremamente fascinante e importante, visto que é durante essas fases que irão se estabelecer o temperamento, a personalidade e o caráter.

      As oportunidades apresentadas às mulheres pós-modernas são muitas, sendo que não há como ser uma super mulher e realizar todas, como também não há como rotular ou atribuir algum tipo de patologia às mulheres sem filhos por opção, pois seria o mesmo que considerar saudáveis todas as mulheres que são mães (MANSUR, 2003).

      É evidente que os casais que permanecem sem filhos são mais questionados do que os casais com filhos, mesmo quando os casais relatam não sofrerem críticas ou discriminação eles têm que se justificarem o tempo todo para a família e os amigos o motivo da sua decisão.

      O casamento passou por inúmeras mudanças ao longo do tempo e consequentemente na contemporaneidade há variações de desejos e de escolhas entre os indivíduos. Atualmente as mulheres podem ter mais controle sobre si mesmas, fazendo suas próprias escolhas de acordo com as suas vontades.

      Os casais entrevistados desenvolveram formas para manter a harmonia entre o casamento, a profissão e os estudos, mesmo que para isso tiveram que abrir mão da maternidade / paternidade em prol de seus projetos de vida. A escolha em não ter filhos gerou, aos casais entrevistados, prazeres e desprazeres, sentimentos estes que fazem parte do cotidiano de todos os seres humanos. Prazer, pois existem muitas vantagens com a ausência de filhos: tempo livre, tomar decisões sem precisar refletir muito, qualidade do vínculo afetivo, carreira profissional, esses são os prazeres de um casamento sem filhos. E desprazeres, pois os casais fizeram esta escolha principalmente pela dificuldade em educar as crianças atualmente, além de terem que conviver com as pressões familiares, pois serão sempre diferentes nesse aspecto em relação aos outros casais.

      Algumas questões se tornam importantes neste final de artigo: Estaria a atual Igreja autodenominada cristã pronta para lidar com antigos e novos problemas advindos dos atuais conceitos sobre temas dogmatizados em sua raiz? Como tratar de temas como “divórcio”, “mães solteiras (por opção)”, a “nova opção de família” aceita pelas leis constitucionais do País, onde todo cidadão é igual perante a lei (e isso independe de sua religião)? Como posicionar os princípios e conceitos cristãos de forma relevante e adequada numa discussão salutar e sem preconceitos humanos, com finalidades de apontar o cristianismo como resposta divina ao pecado que se mostra através de desvios sociais da contínua busca pela vaidade e prazeres pessoais? Como encontrar espaço para abraçar o filho da mãe solteira, a família que não deseja ter filhos, o pai / mãe divorciados por motivos circunstanciais, que não exprimem que a parte abandonada esteja acometida de erro bíblico?

      Uma coisa permanece relevante: — A igreja precisa ter bem definido o seu papel, sua essência e conceitos bíblicos para posicionar-se coerentemente diante de uma nova sociedade com acesso ao conhecimento e a seus direitos. A visão espiritual e bíblica de Igreja precisa também atualizar o seu espaço  e seu papel na sociedade, diante desta nova linguagem contemporânea que continua na contra-mão do caminho divino.

      Que Deus nos guie pelos caminhos dos últimos dias.

 

 

Reverendo Luiz Cláudio de Oliveira

Pastor Presbiteriano, Graduado em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie,

Pós-graduando em Psicanálise e Especialização em Antropologia Bíblica.

E-mail:   luizluizrev@hotmail.com  

 

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Referências

 

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