Ciúme: um sentimento motivacional

05/01/2013 18:29

 

Ciúme: um sentimento motivacional

É possível sanar este sentimento que traz tanto desconforto a um relacionamento (?)

 

O ciúme pode ser considerado uma psicopatologia[1]. É definido como uma reação frente a uma ameaça real ou imaginária, e seu objetivo é eliminar os riscos da (possível) perda do alvo do ciúme. Por vezes, podemos entendê-lo como a emanação de uma emoção provinda da noção de que a pessoa amada desvia sua atenção para outro, colocando em risco a segurança afetiva do enciumado. Enfim, ciúme é uma emoção que pode se manifestar de várias formas, desde o ataque físico ao choro, e que é motivado. Pode ser considerada uma emoção normal ou não; e isso dependerá do contexto e da intensidade.

Sigmund Freud, o ciúme é um fenômeno emocional comum a natureza humana e se instala naturalmente na infânciaPara o judeu austríaco e pai da psicanálise, Sigmund Freud, o ciúme é um fenômeno emocional comum a natureza humana e se instala naturalmente na infância. Seu ponto central se desenvolve dentro do complexo de Édipo, quando o infante sente ciúmes do pai (a quem ele ama), e este entra como um terceiro na relação entre o menino e sua mãe.

Como já disse, não podemos descartar a avaliação da intensidade e o contexto do evento, pois alguns autores pontuam que o ciúme também pode ser fruto de relações narcisistas da infância ou o medo transvestido de amor. O ciúme passa a ser considerado como anormal quando o amor entre duas pessoas tem o objetivo de preencher o narcisismo[2] daquele que tem o ciúme.

Não é nossa proposta neste artigo dialogar sobre narcisismo, contudo, o narcísico patológico é um tipo que apresenta um grande grau de dificuldade em amar o outro verdadeiramente, pois todas as suas relações têm como base o cultivo de uma necessidade de preencher um vazio próprio. Estas pessoas não amam outras pessoas, mas SE amam em outras pessoas.

Em certo grau, o ciúme se mostra como uma defesa emocional contra a perda, mas também a perda de um valor próprio, pessoal. O ciumento prefere (ou procura[3]) pessoas em que julga serem inferiores a ele. Este tipo de processo é perfeitamente normal, mas quase sempre é um ato inconsciente, isto é, não racionalizado pelo cérebro enquanto se procede. Contudo, ao se relacionarem com pessoas que julgam serem superiores, seja intelectualmente, socialmente, profissionalmente, culturalmente etc., é comum resgatarem sentimentos de inferioridade. Neste caso, o ciúme é o resultado de uma estruturação do mecanismo de defesa com o objetivo de evitar situações de risco pessoal. Exemplos podem ser manifestados em casos de homens que só se relacionam com mulheres mais novas, ou que apresentem problemas relacionados com situações discriminatórias (raça, sexo, ideologias etc.), enfim, que preencham suas necessidades de segurança.

Uma das características do ciúme patológico é a tentativa de anular a subjetividade do outro. Tal atitude é fruto de um ego fragilizado e de produção de delírio mentais. Mais uma vez, é na infância que se origina tais raízes.

São casos comuns quando a criança sente ciúme e sentimento de exclusão e reage a vida amorosa dos pais, ou quanto ao nascimento de outro irmão. É muito difícil para a criança vivenciar o seu complexo de Édipo (masculino ou feminino), mas completamente normal e necessário. — Quando descobre que não são alvos do único desejo de suas mães (não são o centro do universo da mãe), isso se constitui numa ferida narcísica. São decepções que fazem parte de todo ser humano (em se tratando de uma família comum e original) e cada um responde de sua própria forma.

Algumas características são comuns no ciumento excessivo: eles sofrem de sentimento de inveja, exclusão, não suportam não fazer parte de situações em que o parceiro com que se relaciona se sinta bem ou realizado sem ela.

Conviver com uma pessoa ciumenta é possível, mas é necessário instaurar rapidamente uma relação adulta e sincera, que dê suporte e base àqueles ciumentos que se diz amar. Uma relação entre adultos já produz uma carga de tensão emocional, que se manifesta de diversas formas. Caso haja o ultrapassar dos limites toleráveis, é necessário buscar apoio emocional ou psicanalítico para entender quais processos estão agindo na base do ciúme.

 

Um caso muito interessante surge da questão: quem é mais ciumento, o homem ou a mulher?

É interessante como casos de ciúmes comuns podem ser motivados de formas diversas. Em 2004, pesquisadores da Universidade de Groningen, na Holanda, Buunk e Dijkstra, fizeram 151 pessoas ler duas histórias, das quais exponho abaixo:

História 1

Numa festa, acompanhado(a) da namorada(o), conversando com um grupo de amigos, ele(a) repara que ela(e) está do outro lado da sala conversando com um homem(mulher) desconhecido(a). Durante a festa, ele(a) a(o) perde de vista. No dia seguinte, a(o) namorada(o) conta que beijou aquele(a) homem(mulher) com paixão e que raramente teve uma sensação sexual tão intensa. Afirma, entretanto, que só se trata de atração física, que é apenas sexual. E garante que não sente nada pelo(a) outro(a).

História 2

O rapaz(moça) está uma festa com sua(seu) namorada(o). Enquanto conversa com um grupo de amigos(as), repara que, do outro lado da sala, a namorada(o) fala com um homem(mulher) que ele(a) não conhece, e, de repente, perde-a(o) de vista. No dia seguinte, a companheira(o) conta que teve uma grande afinidade com aquele homem(mulher) e que raramente encontrou alguém com quem pudesse falar daquela maneira. No plano pessoal, ela se sente ligada a(o) recém-conhecido(a) de um modo único e especial, mas garante que não sente nenhum desejo sexual pelo(a) outro(a). Não se trata de atração física, é apenas uma relação de amizade, e ela(e) já se sente muito ligada(o) a ele(a).

Dessas duas histórias, é feita uma pergunta: Qual será a sensação do namorado(a)?

Os participantes também receberam “fotos” desta suposta terceira pessoa. Em alguns casos, era uma pessoa lindíssima, em outros, de aparência comum. Também foi fornecida uma pequena descrição de sua personalidade: podia ser dominante ou alguém pouco dominante.

Os participantes deveriam preencher um questionário no qual diziam até que ponto estariam enciumados, zangados, desconfiados, tristes, preocupados etc., se fossem eles os protagonistas das histórias.

O resultado foi:

1 – Os homens tinham muito ciúme quando a pessoa que esteve com sua companheira era socialmente dominante.

2 – Entre as mulheres, ao contrário, o ciúme era imenso quando a outra era muito bonita.

Em resumo, para os participantes do sexo masculino, o perigo vinha do status social, ao passo que, para as mulheres, era provocado principalmente pela aparência física da concorrente.

            O motivo?

Para se envolverem em um relacionamento a longo prazo, as mulheres avaliam o status social do homem. Isso não é a única característica levada em conta, mas é importantíssima. Para as mulheres, cuja característica de serem as “geradoras” da prole, alguém “socialmente dominante” poderá prover recursos suficientes para a família, especialmente para os filhos. Então, essa será a base de concorrência sexual entre os homens. Eles estarão atentos ao status do rival no caso de tentativa de sedução da namorada.

Em contrapartida, os homens prestam a atenção à atração física exercida por uma futura parceira. Supõe-se que, antigamente e por muito tempo, a beleza serviu de sinal para que os homens avaliassem a fertilidade de uma possível companheira (BUSS, 1989). As mulheres, portanto, ficaram mais atentas à beleza das rivais, pois os homens são muito mais sensíveis a essa característica.

Em geral, eles sofrem mais quando há traição sexual, e elas são mais sensíveis à infidelidade sentimental de seu companheiro.

Outro registro feito foi a diferenciação de resultados nas diferentes motivações de ciúmes. Nos casos “sexuais” havia muita tristeza, rejeição, raiva e de traição, enquanto que, nos casos “sentimentais” era mais de preocupação, desconfiança e ameaça.

Os dois tipos de ciúmes têm a mesma função: proteger um relacionamento a fim de manter sua exclusividade.

A natureza dos seres humanos quanto a seus gêneros também explica um pouco destes resultados. As características reprodutoras de ambas as espécies – homens e mulheres –, faz com que eles não se comportem da mesma forma quanto ao ciúme.

Concluímos, portanto, que ciúme tem jeito sim! Se patológico, deve ser conduzido para tratamento de saúde mental. Se comum ou normal, muita maturidade e conversa sincera, se respeitando mutuamente, pode sim resolver o problema do ciúme.

 

 

Leituras____________________________________________________________________________________

Sex differences in human mate preferences: evolutionary hypotheses tested in 37 cultures. D. M. Buss, em Behavioral and Brain Sciences, 12, págs. 1-49, 1989.

Sex differences in jealousy: evolution, physiology, and psychology. D. M. Buss, R. J. Larsen, D. Westen e J. Semmelroth, em Psychologycal Science, 3, págs. 251-255, 1992.


[1] Psicopatologia – ramo da medicina que tem como objetivo fornecer a referência, a classificação e a explicação para as modificações do modo de vida, do comportamento e da personalidade de um indivíduo, que se desviam da norma e/ou ocasionam sofrimento e são tidas como expressão de doenças mentais

[2] Narcisismo – característica de personalidade de paixão por si mesmo.

[3] O processo de procura pode ser, em certo sentido, ser inconsciente.

 

 

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