História da Escola Dominical

15/09/2011 12:58

 História da Escola Dominical

 

jornalista inglês Robert Raikes (1753-1811)            A história do protestantismo possui momentos marcantes e muito estimulantes para as conquistas cristãs. Uma de suas instituições mais duradouras e benéficas para a sociedade que se usufrui de suas influências é a escola dominical. A educação religiosa cristã tem contido em seu contexto mais amplo esta escola, como influência de uma preocupação da Igreja desde os tempos apostólicos. A educação, instrução com o intuito de capacitar o povo de Deus, sempre foi uma poderosa ferramenta no desenvolvimento da vida familiar e religiosa de Israel, no Antigo Testamento. A necessidade de um local de ensino, que veio a culminar na criação das sinagogas, surge como agência instrutora de grande importância no judaísmo no período denominado interbíblico. Assim, podemos perceber como o ensino é enfatizado no meio deste povo, como por exemplo, no ministério de Jesus; que foi mestre e reuniu em torno de si os seus discípulos nos moldes rabínicos dos mestres de seu tempo. Tornada fundamental, as atividades didáticas foram inseridas na propagação e solidificação do movimento do cristianismo da igreja primitiva, como se pode observar ao conhecer o Novo Testamento.

 

1. Os primeiros passos

 

            O responsável pela fundação do que é hoje conhecida como a moderna Escola Dominical foi o jornalista inglês Robert Raikes (1753-1811). Natural da cidade de Gloucester, aos vinte e dois anos de idade (em 1757), Raikes sucedeu a seus pai como editor do Gloucester Journal – periódico voltado para a reforma de prisões. A Inglaterra de Raikes passava por um momento muito positivo para a religião cristã, o extraordinário avivamento evangélico e sua forte ênfase social. Inspirado, Raikes iniciou uma escola em sua paróquia em 1780, onde educava crianças pobres de seis a 14 anos na leitura e na escrita e dava-lhes instrução bíblica.

            Brilhante, a idéia de Raikes toma proporções pelo país e, cinco anos mais tarde (1785), foi organizada em Londres uma sociedade focada para criação de Escolas Dominicais. Toda a Inglaterra, um ano mais tarde, possuía cerca de 200.000 crianças sendo educadas. Durante um pequeno período iniciatório os professores foram pagos, mas depois aderiram ao voluntariado. Expandindo o projeto, a Escola Dominical chega ao País de Gales, Escócia, Irlanda e Estados Unidos.


2. Propagação no Estados Unidos

 

            Por ocasião da independência dos Estados Unidos, próximo da finalização do século 18, o país experimenta escassez na educação, especialmente para as crianças pobres terem acesso. Foi na Escola Dominical de Raikes que o suprimento desta carência veio a ser suprindo, pois recebiam o ensino geral além do religioso.

            O surgimento da primeira Escola Dominical americana aconteceu em Virgínia, em 1785, numa residência. Outras escolas dominicais foram criadas na década seguinte em Bostom, Nova York, Filadélfia, Rhode Island e Nova Jersey. Dentre o favorecimento, as crianças mais carentes, geralmente as que trabalhavam em indústrias, eram preferidas. Na primeira usina de algodão dos Estados Unidos, na cidade de Pawtucket, Estado de Rhode Island, foi iniciada uma Escola Dominical. Em geral, os primeiro dirigentes eram leigos e líderes comunitários; o texto usado para instrução era a Bíblia, mas outras matérias acompanhavam a educação das crianças, tais como literatura, redação, valores cívicos e morais. desta forma, podemos perceber a pavimentação de um caminho sendo preparado para a criação posterior das escolas públicas.

 

3. Movimento organizado

 

            A partir de 1800, os propósitos das escolas dominicais americanas passaram a ser instrução e evangelismo; elas transmitiam valores cristãos e o espírito democrático da nova nação. Era um trabalho não-denominacional ou, como se dizia na época, uma “associação voluntária”, reunindo pessoas de diferentes igrejas. Em 1824 foi fundada a União Nacional de Escolas Dominicais, que organizou os líderes, publicou literatura e criou milhares de escolas no interior do país. Na mesma época, muitas denominações começaram a criar as suas próprias uniões de escolas dominicais.

            Até a década de 1870, existiram dois tipos de escolas dominicais: (a) missionárias, que evangelizavam crianças em áreas rurais e bairros pobres das grandes cidades; (b) eclesiásticas, que educavam os filhos dos membros das igrejas. Em 1869 reuniu-se a primeira Convenção Nacional de Escolas Dominicais (passou a denominar-se Convenção Internacional em 1875). Uma comissão passou a preparar um currículo de lições padronizadas para uso geral (Lições Internacionais). Surgiram normas para o uso do tempo e do espaço nas igrejas e o sistema foi levado para os campos missionários no exterior.

            No final do século dezenove, 80% dos novos membros ingressavam nas igrejas através das escolas dominicais. Em 1905, foi criada a Associação Internacional de Escolas Dominicais, que passou a promover convenções em muitos países, algumas das quais tiveram a presença de brasileiros.


4. A Escola Dominical no Brasil

 

            A escola dominical chegou ao Brasil como as primeiras missões protestantes. A primeira escola dominical permanente foi fundada pelo casal Robert e Sarah Kalley em Petrópolis, no dia 19 de agosto de 1855. Sarah Kalley havia sido grande entusiasta desse movimento na sua pátria, a Inglaterra. A primeira escola dominical presbiteriana foi iniciada pelo Rev. Ashbel Green Simonton em maio de 1861, no Rio de Janeiro. Reunia-se nos domingos à tarde, na rua Nova do Ouvidor. Essa escola aparentemente foi organizada de modo mais formal em maio de 1867. Um evento comum em muitas igrejas presbiterianas brasileiras nas primeiras décadas do século 20 era o “Dia do rumo à escola dominical”, quando se fazia um esforço especial para trazer um grande número de visitantes.

            Um destacado incentivador das escolas dominicais foi o Dr. Eliézer dos Santos Saraiva (1879-1944), presbítero da Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo, que promoveu as primeiras convenções de escolas dominicais do Brasil, bem como encontros de confraternização e piqueniques. Outro grande incentivador foi o Rev. Erasmo de Carvalho Braga (1877-1932), que traduziu, adaptou e escreveu por vários anos as Lições Internacionais (Livro do Professor, 1921-1929), um valioso material para crianças, jovens e adultos. No início do século vinte surgiu a União Brasileira das Escolas Dominicais, depois Conselho Nacional de Educação Religiosa, cujo trabalho foi continuado pela Confederação Evangélica do Brasil.

 

A História da Escola Dominical e Robert Raikes

 

            Sentado a sua mesa de trabalho num domingo em outubro de 1780 o dedicado jornalista Robert Raikes procurava concentrar-se sobre o editorial que escrevia para o jornal de Gloucester, de propriedade de seu pai. Foi difícil para ele fixar a sua atenção sobre o que estava escrevendo pois os gritos e palavrões das crianças que brincavam na rua, debaixo da sua janela, interrompiam constantemente os seus pensamentos. Quando as brigas tornaram-se acaloradas e as ameaças agressivas, Raikes julgou ser necessário ir à janela e protestar do comportamento das crianças. Todos se acalmaram por poucos minutos, mas logo voltaram às suas brigas e gritos.

            Robert Raikes contemplou o quadro em sua frente; enquanto escrevia mais um editorial pedindo reforma no sistema carcerário. Ele conclamava as autoridades sobre a necessidade de recuperar os encarcerados, reabilitando-os através de estudo, cursos, aulas e algo útil enquanto cumpriam suas penas, para que ao saírem da prisão pudessem achar empregos honestos e tornarem-se cidadãos de valor na comunidade. Levantando seus olhos por um momento, começou a pensar sobre o destino das crianças de rua; pequeninos sendo criados sem qualquer estudo que pudesse lhes dar um futuro diferente daquele dos seus pais. Se continuassem dessa maneira, muitos certamente entrariam no caminho do vício, da violência e do crime.

            A cidade de Gloucester, no Centro-Oeste da Inglaterra, era um pólo industrial com grandes fábricas de têxteis. Raikes sabia que as crianças trabalhavam nas fábricas ao lado dos seus pais, de sol a sol, seis dias por semana. Enquanto os pais descansavam no domingo, do trabalho árduo da semana, as crianças ficavam abandonadas nas ruas buscando seus próprios interesses. Tomavam conta das ruas e praças, brincando, brigando, perturbando o silêncio do sagrado domingo com seu barulho. Naquele tempo não havia escolas públicas na Inglaterra, apenas escolas particulares, privilégio das classes mais abastadas que podiam pagar os custos altos. Assim, as crianças pobres ficaram sem estudar; trabalhando todos os dias nas fábricas, menos aos domingos.

            Raikes sentiu-se atribulado no seu espírito ao ver tantas crianças desafortunadas crescendo desta maneira; sem dúvida, ao atingir a maioridade, muitas delas cairiam no mundo do crime. O que ele poderia fazer?

           

Por um futuro melhor

 

            Sentado a sua mesa, e meditando sobre esta situação, um plano nasceu na sua mente. Ele resolveu fazer algo para as crianças pobres, que pudesse mudar seu viver, e garantir-lhes um futuro melhor! Pondo ao lado seu editorial sobre reformas nas prisões, ele começou a escrever sobre as crianças pobres que trabalhavam nas fábricas, sem oportunidade para estudar e se preparar para uma vida melhor. Quanto mais ele escrevia, mais sentia-se empolgado com seu plano de ajudar as crianças. Ele resolveu neste primeiro editorial somente chamar atenção à condição deplorável dos pequeninos, e no próximo ele apresentaria uma solução que estava tomando forma na sua mente.

            Quando leram seu editorial, houve alguns que sentiram pena das crianças, outros que acharam que o jornal deveria se preocupar com assuntos mais importantes do que crianças, sobretudo, filhos dos operários pobres! Mas Robert Raikes tinha um sonho e este estava enchendo seu coração e seus pensamentos cada vez mais! No editorial seguinte, expôs seu plano de começar aulas de alfabetização, linguagem, gramática, matemática, e religião para as crianças, durante algumas horas de domingo. Fez um apelo, através do jornal, para mulheres com preparo intelectual e dispostas a ajudar-lhes neste projeto, dando aulas nos seus lares. Dias depois um sacerdote anglicano indicou professoras da sua paróquia para o trabalho.

            O entusiasmo das crianças era comovente e contagiante. Algumas não aceitaram trocar a sua liberdade de domingo, por ficar sentadas na sala de aula, mas eventualmente todos estavam aprendendo a ler, escrever e fazer as somas de aritmética. As histórias e lições bíblicas eram os momentos mais esperados e gostosos de todo o currículo. Em pouco tempo, as crianças aprenderam não somente da Bíblia, mas lições de moral, ética, e educação religiosa. Era uma verdadeira educação cristã.

            Robert Raikes, este grande homem de visão humanitária, não somente fazia campanhas através de seu jornal para angariar doações de material escolar, mas também agasalhos, roupas, sapatos para as crianças pobres, bem como mantimentos para preparar-lhes um bom almoço aos domingos. Ele foi visto freqüentemente acompanhado de seu fiel servo, andando sob a neve, com sua lanterna nas noites frias de inverno. Raikes fazia isto nos redutos mais pobres da cidade para levar agasalho e alimento para crianças de rua que morreriam de frio se ninguém cuidasse delas; conduzindo-as para sua casa, até encontrar um lar para elas.

            As crianças se reuniam nas praças, ruas e em casas particulares. Robert Raikes pagava um pequeno salário às professoras que necessitavam, outras pagavam suas despesas do seu próprio bolso. Havia, também, algumas pessoas altruístas da cidade, que contribuíam para este nobre esforço.

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