Jejum Bíblico

01/04/2011 15:03

O Jejum Bíblico

       Tratar sobre o tema “Jejum” é beirar uma discussão quase sem fim. Cada um tem uma precípua pessoal na qual baseia sua prática. Utilizando a Bíblia Sagrada, aferimos que a maioria das pessoas têm utilizado princípios errôneos e deturpados para o jejum, e que tais práticas acabam por entorpecer e nublar a natureza do que significa o jejum bíblico. Isso, sem dizer que ainda põem em risco a própria saúde.

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O misticismo e o jejum

 

Jejum não é sacrifício

      No calendário judaico encontramos um dia no qual a prática do jejum é requerida, chama-se Yom Kippur, também chamado de “dia do perdão”. Segundo a tradição judaica, neste dia, Deus julga os pecados de cada um e dá a sua sentença. A importância deste dia para o judaísmo está nas práticas rituais que são realizadas, cheias de expressões espiritualizadas com base em suas crenças. Seu início se dá no crepúsculo do décimo dia do mês hebreu de Tishrei (que coincide com Setembro ou Outubro), seguindo até ao seguinte pôr do sol. Os judeus tradicionalmente observam esse feriado com um período de jejum de 24 horas e reza intensa.

      O jejum está associado as cinco proibições deste evento. A primeira é “comer”. Para que haja sustento durante os cerimoniais, os participantes comem um pouco antes do pôr-do-sol na véspera do dia até o nascer das estrelas do dia de Yom Kippur. A segunda proibição é o uso do “calçado de couro”. A terceira proibição é a pratica sexual do relacionamento conjugal. A quarta proibição está relacionada a higiene: é proibido  o uso de cremes, desodorantes, etc. E a quinta e última é “banhar-se por prazer”. A finalidade destas proibições é causar aflição ao corpo, priorizando a alma. Segundo a visão judaica, o ser humano é constituído de yetzer hatóv (o desejo de fazer as coisas corretamente, que é identificado na alma) e yetzer hará (o desejo de seguir os próprios instintos, que corresponde a carne [corpo]). O desafio de vida é harmonizar o corpo com a alma.

 

Ramadã mulçumano e a prática do jejum

      A religião mulçumana denominada Islamismo também apresenta em seu calendário uma data especial cuja celebração também inclui a prática do jejum. O Ramadã, que acontece no nono mês do ano, é celebrado pelos fiéis com a realização de jejuns rituais diários entre o alvorecer até o entardecer (pôr-do-sol), o quarto dos cinco pilares do Islão (arkan al-Islam). A expressão Ramadã possivelmente se relaciona com a palavra árabe ramida (ser ardente), pelo fato do Islão ter celebrado este jejum pela primeira vez no período mais quente do ano. Durante o período do Ramada é comum a prática mais intensa da caridade e vivência mais aproximada de fraternidade e dos valores da vida familiar. É um tempo também para a renovação da fé, na qual se pede ao crente mulçumano maior proximidade dos valores sagrados, leitura mais assídua do Alcorão, freqüência à mesquita, correção pessoal e autodomínio. O mês do Ramadã, conforme a crença islâmica, é o único mês que Deus menciona pelo nome no Alcorão:

“O mês do Ramadã foi o mês em que foi revelado o Alcorão, orientação para a humanidade e evidência de orientação e discernimento” — Alcorão, 2:185.

      O jejum ramadâmico é obrigatório a todos os mulçumanos a partir de sua puberdade. É um momento muito importante  quando um jovem é autorizado por seus pais a praticar o jejum ramadâmico; para ele representa uma marca simbólica da entrada na vida adulta, segundo as inscrições do Alcorão, que diz:

“...e aquele dentre vós que presenciou a Lua Nova deste mês (Ramadã), deverá jejuar, e aquele que se encontrar enfermo ou em viagem, jejuará depois o mesmo número de dias...” Alcorão (Surat Al-Baqara - C.2, Versículo 185).

 

Prática da leitura sagrada no Ramadã

      Ainda que seja visto como um ritual sagrado, o islã aceita certas justificativas para que o fiel possa ser isento da prática do jejum. São elas: uma enfermidade, gravidez, lactância, menstruação, o idoso ou uma doença incurável. Aquele que for jejuar não pode comer, beber, ter relações sexuais (durante o período de jejum), senão é considerado nulo. Se, porventura, o crente da fé islâmica quebrar inadequadamente o ritual de jejum, deverá jejuar por 60 dias seguidos.

      A crença dita que a ação do jejum vai além da abstinência de alimentos ou bebidas, mas à todas as coisas más, maus pensamentos e maus atos. O praticante deve ser indulgente em caso de insultos ou agressão, deve evitar obscenidades, ser generoso e aumentar a leitura do Alcorão, muito mais do que os outros meses. O jejum serve para purificação do organismo e do homem interior e espiritual.

 

Católicos possuem dias próprios para prática do jejum

    Os Católicos Romanos e evangélicos também são adeptos do jejum como meio de manifestação de sua fé. Dentre os cinco mandamentos do Catolicismo Romano, está o ato de abster-se de comer carne e observar o jejum nos dias estabelecidos pela Igreja, que são Quarta-feira de Cinzas, Sextas-feiras Santas e as sextas-feiras da Quaresma. Estes mandamentos foram promulgados em 2005 pelo Papa Bento XVI na Legislação Complementar da CNBB quanto aos cân. 1251 e 1253 do Código de Direito Canônico. E quanto aos evangélicos, esta versão do cristianismo primitivo com impregnações interculturais, por eles chamadas de gospels; suas práticas vão depender do seguimento do qual se originam. Os evangélicos são miscigenados entre si. São oriundos do protestantismo, mas sem sinais evidentes de seu nascedouro. Hoje, com suas posturas próprias e com um etos de enorme diversidade, os evangélicos também praticam o jejum, cada qual, conforme orientado pelos seus líderes. — A partir destas práticas, surge um mito de que o jejum concretamente purifica o organismo.

      O Catolicismo distingue entre jejum e abstinência. O jejum é a abstinência total de comida e bebida (com exceção da água) enquanto que a abstinência é abster-se de alguma coisa que seja mais pesada ou mais cobiçada. Há um cuidado para pessoas em condições especiais de vulnerabilidade: crianças, enfermos, viajantes, pessoas idosas ou muito fracas, e mulheres grávidas. Estes podem isentar-se da prática ritual.

 

Evangélicos, jejum como ferramenta de poder e alcance de bênçãos

      Os evangélicos não tem datas específicas para jejuar. O jejum é baseado no sentido bíblico literalista. Para a crença evangélica, o jejum é uma ferramenta, uma forma de “matar a carne”. Quando você “mata a carne”, você está fortalecendo o seu espírito, vencendo motivações egoístas e assim, se aproximando mais de Deus. Conforme a crença evangélica, o jejum pode ser a abstinência não só de alimentos e líquidos, mas de qualquer coisa ou hábito que tenha se tornado “indispensável”, como forma de entrega e dependência real de Deus. O jejum eficaz é acompanhado de leitura bíblica e oração. Ele também varia de acordo com a idade, condição de saúde, necessidade de esforço entre outros. O modo de se jejuar no meio evangélico é fazer uma oração dizendo a Deus que a partir daquele horário ele estará jejuando, e, quando o jejum terminar, ele (ou a Igreja) fazem uma consagração, entregando o jejum nas mãos de Deus. Jejuando, a pessoa fica mais forte espiritualmente e mais resistente ao inimigo, porém não se deve demonstrar para as pessoas que está em jejum, este ato é uma particularidade entre o homem e Deus. 

Dentre algumas outras expressões religiosa, temos: 

Gandhi

Mahatma Gandhi — teria feito jejum dezessete vezes, sempre em solidariedade às pessoas que passavam fome ou para protestar contra a violência, lutando para libertar seu povo de forma não-violenta. 

 

Mórmons atuantes

Os Santos dos Últimos Dias — (também conhecidos como Mórmons) possuem a prática do jejum. Entendem que o jejum completo, ao qual são encorajados, é a abstinência total de alimentos e líquidos durante um período que inclua duas refeições (aproximadamente 24 horas), em todo primeiro sábado / domingo de cada mês, tendo início no almoço ou jantar do sábado e concluindo na mesma refeição no domingo. Há uma liberdade quanto a prática do jejum de forma extra-obrigatória, isto é, pode ser praticado durante outros dias do mês, conforme a vontade do praticante. A prática deverá ser no primeiro domingo reforçada por uma reunião especial, onde os santos dos últimos dias têm a liberdade de relatarem suas experiências pessoais e prestarem testemunho de suas crenças. Durante o período de jejum, os mórmons se dedicam mais à leitura e estudo das Escrituras e à oração. A quantia que seria gasta no preparo dessas duas refeições é doada para um fundo específico da Igreja, que o utiliza para tratar dos necessitados. Os santos dos últimos dias consideram o jejum como um meio de desenvolver auto-controle, buscar bênçãos divinas e refinar o espírito. 

Sã Doutrina Espiritual do Sétimo Dia — Os membros da Sã Doutrina Espiritual do Sétimo Dia (também conhecidos como crente-espiritual) praticam o jejum completo (abstinência total de alimentos e líquidos) durante períodos determinados, normalmente aos sábados, iniciando à zero hora, e concluindo ao meio dia, ou ainda às 18 horas), em todos os momentos que necessite fazer uma oferta per si, ou ainda em benefício de um irmão, parente, ou amigo. Durante o jejum, os praticantes se dedicam mais especificamente à leitura e estudo das escrituras, à oração, e ao cultivo de cânticos (hinos). Os crentes da doutrina consideram o jejum como um meio de buscar bênçãos divinas, do desenvolvimento de dons, de encontrar entendimento espiritual, e refinar o espírito. 

abdul-baha-abbas

Fé Bahá'í — O Jejum Bahá'í, consiste em que no último mês do Calendário bahá'í, que compreende o período de 2 a 21 de março, os bahá'ís abstêm-se de alimentos e bebidas do nascer ao pôr-do-sol. O jejum não é obrigatório para crianças, enfermos, viajantes, pessoas idosas ou muito fracas, gestantes ou os que possuem trabalhos pesados. Embora essa abstinência seja realizada fisicamente, a ideia dessa prática é de origem espiritual, representa a purificação do corpo através do desprendimento a desejos mundanos ou egoístas. 

      Ainda que nosso País seja laico, os profissionais de saúde concordam com a liberdade de culto religioso e a simbologia litúrgica, entretanto, recomendam que a prática do jejum não seja parte de uma rotina diária. Dr. Adriano Segal, coordenador do ambulatório de obesidade do Ambulim (Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares) do Hospital das Clínicas em São Paulo, diz que o erro está em transformar uma manifestação simbólica em uma indicação de melhora de saúde:

Isto não procede: jejum não purifica o organismo. Para algumas pessoas (por exemplo, diabéticas, muito idosas, com alguma debilitação física importante, que usam medicação com horários fixos), chega-se a contra-indicar estas práticas, mesmo no contexto religioso, devido a riscos importantes que acarreta para a saúde.

       O jejum deve ser feito sob orientação especializada. O profissional responsável, admitindo a necessidade do jejum, encaminhará a pessoa de acordo com sua necessidade específica. Segundo Dr. Adriano Segal: 

“O jejum não traz vantagens para o organismo e, de fato, sua realização de rotina deve ser evitada, a não ser em casos específicos (como realização de cirurgia que necessite de certos tipos de anestesia, coleta de exames, rituais religiosos e outros)”.

 

Efeitos do jejum prolongado no organismo

      O prolongamento da prática do jejum podem proporcionar uma queda de energia no organismo. Sim, energia! Durante a abstinência, as reservas de glicose do organismo vão se esgotando, e, juntamente com elas, outras fontes de energia como proteínas e gordura, que passam a ser utilizadas pelo organismo para que se mantenha vivo. Quanto mais prolongado for o jejum, mais se consumira desta reserva energética do organismo. Sílvia Franciscato Cozzolino, professora de nutrição humana da Faculdade de Ciências Biomédicas da USP, diz que “o humor se altera (a pessoa passa a ficar mais irritável), o hálito fica ruim, a pessoa pode ter crises de hipoglicemia (que podem ser graves), a taxa metabólica diminui, entre outras alterações”. 

      Você já ouviu falar em “hipoglicemia rebote”? É o efeito causado pela repentina elevação de insulina no corpo. Durante o longo período do jejum, o corpo pára de produzir insulina por causa da falta de ingestão de carboidrato. Uma vez que o jejum é interrompido, acontece uma elevada secreção de insulina, às vezes maior do que a necessária, promovendo a hipoglicemia. Isso é uma alteração grave da glicemia. O corpo tende a se acostumar com a privação, e, depois de um longo período de jejum, é recomendado que haja uma ação paulatina de readaptação alimentar. Infelizmente, sabemos que não é isso o que acontece!

      Poucos, ou quase nenhuma das pessoas que jejuam, sabem sobre a real capacidade que um organismo aguenta ficar em abstinência (lembrando que cada pessoa possui uma capacidade específica). Segundo Adriano, “Teoricamente, uma pessoa de 70 kg tem subsídios energéticos para agüentar um jejum por 90 dias. Mas ninguém chega a esse ponto, porque acontecem outros problemas antes disso”. Para o especialista, “Em média, podemos dizer que um paciente agüenta ficar sem comer por 60 dias”. — Dos possíveis problemas comentados pelos médicos, os principais são as infecções.

      O fígado é o primeiro a ser assaltado. O órgão armazena glicogênio, fazendo dele uma reserva de glicose que tem, aproximadamente, a quantidade de glicose para uma abstinência de 12 horas. O tecido adiposo é o próximo a sofrer, pois perde a energia da gordura, que pode provocar a formação de substâncias tóxicas. Seguindo do tecido muscular, o corpo e seus mecanismos, perdem resistência, ficando o paciente sujeito a infecções. Segundo Segal: 

“Com o corpo debilitado e um quadro de infecção, a pessoa pode morrer. O paciente, após um jejum prolongado, pode vir a ter problemas no pulmão ou no sistema nervoso, por exemplo” 

      Muitas vezes, pessoas praticantes de jejum descontrolado e longo, se são predispostas a doenças como anorexia nervosa, quadros depressivos e transtornos alimentares, podem sofrer bastante acionando tais transtornos. Os diagnosticados “comedores compulsivos” que vieram a ter tais transtornos, em muitos casos empreenderam tais jejuns e vieram a tornar-se compulsivos.

  

O jejum é bíblico?

      Não basta encontrar uma palavra na Bíblia para que possamos dizer que a conhecemos ou que usamos ao sabor de nosso bel-prazer. É importante que saibamos o contexto e a forma com a qual o texto bíblico está empregando a palavra.

      Se o fato do termo jejum ser encontrado na Bíblia dá a ele autoridade de ser chamado de bíblico, igualmente bíblico é, portanto, as formas e a natureza contextual da qual a palavra foi empregada.

      Calvino não nega o jejum, entendendo-o como presente na Bíblia, contudo, questiona esta visão do jejum como um instrumento de folias, usos e costumes dos homens para manipular Deus e seu governo. Fazendo apologia contra o pensamento católico romano, João Calvino interpela: 

...eles se atêm a outras coisas, como a Quaresma. Trata-se do jejum que deve ser praticado [todo ano], dizem os papistas. O motivo é que Jesus Cristo jejuou. Sim, mas será que Ele, que é a Fonte de toda perfeição e Espelho de toda santidade, jejuou todo ano? Não, ele só jejuou [por quarenta dias] uma vez. Os papistas afirmam que devemos jejuar todo ano, e que nisso tudo há grande devoção e santidade. Só que, se fosse [verdade] assim, eles superariam a Jesus Cristo. Certamente isto é uma superstição demoníaca – jejuar quarenta dias dessa forma, com a opinião de que dessa forma nós nos assemelharemos a Cristo. Pois nós bem sabemos que o nosso Senhor Jesus quis com isso mostrar que, naquele período específico, ele se afastou da condição geral dos homens, da mesma forma como foi feito com Elias por milagre, e com Moisés quando ele publicou a Lei. Ah, e será que os judeus do passado seguiram Elias e Moisés [nessa prática]? Será que um só mesmo de todos os demais profetas jejuaram aquele jejum? Não! Pois sabiam que isso não lhes tinha sido ordenado por Deus, e que ele não fez disso uma regra geral. E sabiam que ele não se agrada quando fazem lei de uma coisa ordenada para uma ocasião específica. (Calvino, J. Sermon CXLIX, pp. 9-11)

 

      Nas muitas passagens do Novo e Velho Testamentos encontramos claramente  alusões ao jejum. Não se encontra, porém, nenhuma ordenança ou obrigação com o jejum, e muito menos sobre uma promulgação de “dias” de jejum no Novo Testamento. No Sermão do Monte, Jesus faz um apontamento acerca da prática do jejum pelo povo (Mt 6.16-18), na qual estabelece algumas regras éticas. 

      Existem aqueles que crêem no jejum como uma ferramenta para lutar contra o diabo e, ainda utilizam-se de passagens como a de Mateus 17.21 para afirmarem suas hipóteses. Contudo, tanto nesta passagem como em Marcos 9.29, Jesus não expôs o jejum desta forma. O cerne da questão está no gênero do significado de jejum e oração. A oração é um meio de graça que, quando exercido, abençoa o cristão com comunhão com Deus e fortalecimento de sua fé. O jejum, por sua vez, é um elemento purificador (de depuração). Note que, purificação é um termo utilizado para “limpeza” na Bíblia. O exercício da santidade, da fé, de vida com Deus se dá cada vez melhor, quando o crente é limpo/limpado diante de Deus. Por isso, a prática do jejum, na religião cristã, é associado a prática concomitante da oração e da leitura e reflexão na Palavra de Deus. Todos estes meios, em exercício, promove a mesma benesse: purificação espiritual, comunhão e fortalecimento da fé. — Note que, no Evangelho supracitado de Mateus, no versículo 20, vemos o evangelista registrar a resposta de Jesus para o “porque” de os discípulos não terem conseguido expulsar o demônio do enfermo: a Falta de uma Fé contumaz. Era pequena a fé dos discípulos por causa da ausência do exercício de purificação e comunhão com Deus. É o mesmo princípio explicitado pelo Apóstolo Tiago, em sua epístola, quando diz em 4.7: — “Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós”. Ouço muitas pessoas que proferem este versículo suprimindo a sua primeira parte (Sujeitai-vos, portanto, a Deus...). Isso invalida qualquer tentativa de resistir ao diabo! — Sem comunhão com Deus não há fé, jejum ou oração que nos torne poderosos suficientemente para empreitar uma atitude tão petulante e de exaltação pessoal que é lutar contra o mal. É porque aprendemos a gostar da idéia, motivados pelo modismo evangélico, de que somos autossuficientes, de que Deus é um coadjuvante, um ajudador (apenas), de nossa heróica e tremenda missão de autoexaltação.

      Como disse, a prática do jejum, dentre outras, é bíblica. Mas seu valor está no gênero do significado de jejum, que é purificação. E este é o princípio prescritivo de passagens como Mt 4.2, de Jesus no deserto; de At 14.23; 2Co 6.5; 11.27, momentos de necessidades apostólicas; At 13.2,3, a igreja em exercício (A expressão jejuando está no gerúndio, o que quer dizer que eles estavam dentro do período em que se propuseram jejuar) e a viúva de Lc 2.37, representando a igreja.

      Em alguns momentos de necessidade espiritual da igreja, o jejum aparece como uma fator diferencial promovido pela consciência cristã. Por exemplo, o de eleger seus líderes. A Igreja realizou o jejum para que, por meio da purificação, pudessem se submeter a vontade divina com mais sensibilidade, com o intuito de realizar esta vontade.

      A importância de uma interpretação saudável das Escrituras se faz necessária pela enormidade de conceitos (uns diferenciados, outros opostos) sobre um mesmo tema. Seria Deus tão confuso assim? A minha Bíblia diz que não! Ela nega que Deus seja de confusão (1Co 14.33).

      A Confissão de Fé de Westminster, em seu capítulo XXI, 5, se referindo ao culto público religioso e ao dia santificado do domingo, diz: 

A leitura das Escrituras com o temor divino, a sã pregação da palavra e a consciente atenção a ela em obediência a Deus, com inteligência, fé e reverência; o cantar salmos com graças no coração, bem como a devida administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo - são partes do ordinário culto de Deus, além dos juramentos religiosos; votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, tudo o que, em seus vários tempos e ocasiões próprias, deve ser usado de um modo santo e religioso. (destaques meus!)

 

      Note que os autores da Confissão de Fé tiveram o cuidado de especificar as partes do culto público numa ordem hierárquica entre coisas instituídas espiritualmente e outras humanamente. Desde “A leitura das Escrituras” até “recepção dos sacramentos instituídos por Cristo”, disseram: “são partes do ordinário culto de Deus” (atente para o termo ordinário). A partir da expressão “além dos” se começa a falar de coisas que não são usuais cotidianamente, mas de caráter especial. Perceba que a Confissão de Fé diz “juramentos religiosos; votos, jejuns solenes e ações de graças”, tudo isso e de que forma? Em “ocasiões especiais”. — Não eram rotineiras e usuais no culto, segundo a visão da Confissão de Fé, que representa bem o contrário de “ordinário” se referindo a ordem anterior. Portanto, também na Confissão de Fé vemos que o jejum está presente na vida cúltica da Igreja, mas não de forma ordinária, isto é, “costume, à ordem normal; que não apresenta condição particular; comum, habitual, useiro” (DIC. HOUAISS). 

      Portanto, concluímos que o jejum é uma experiência bíblica. Não podemos dizer que o jejum não é bíblico, como também anunciá-lo como uma ferramenta que faça outra coisas que não seja atrelada a purificação/limpeza espiritual do crente para seu crescimento em santidade e maturidade cristã, é igualmente errado.

 

Biblicamente, falando sobre jejum

      Vamos nos ater ao conceito neotestamentário por razões óbvias: o Novo Testamento traz uma perspectiva mais aproximada da interpretação bíblica para nossos dias.

      Vejamos uma exegese simples do termo jejum no Novo Testamento. Segundo Strong, a palavra JEJUM aparece de três formas: A primeira é [νηστεια - nesteia], que literalmente significa “jejum, abstinência”. Dependendo do caso ou terminações da língua pode significar um jejum: 1 – voluntária, como exercício religioso; 2 – de jejum particular; 3 – de forma específica: o jejum público prescrito pela lei mosaica e observado anualmente no grande dia da expiação, no décimo dia do mês de Tisri (o mês Tisri compreende uma parte de Setembro e Outubro no nosso calendário); o jejum portanto, ocorria no outono quando navegar era geralmente perigoso por causa das tempestades; e 4 – abstinência provocada por necessidade ou pobreza. — Como se pode ver, nem sempre o termo jejum que aparece no Novo Testamento, está ligado ou significa o jejum ritual como exercício de purificação para santificação ou maturidade espiritual.

      Quando o termo para jejum for [νηστευω - nesteuo], a única tradução tem significado de “abster-se de comida e bebida como exercício religioso: inteiramente, se o jejum é de apenas um dia, ou por costume e opção alimentar, se por vários dias”. 

      Quando o termo vem acompanhado da “insep. partícula negativa ne- (não)” e for [νηστις - nestis], jejum terá o significado de “não ter comido”. 

      Nossa opção pela visão neotestamentária do jejum é motivada também pela linguagem ambígua presente no Velho Testamento, com respeito a algumas palavras. O termo jejum é uma delas. Para começar, não havia nenhum termo em hebraico para jejum, o que pode sugerir que não havia uma prescrição inicial sobre o ato de jejuar como um ritual religiosos. Já no período mosaico, encontramos no Livro de Levítico (16.29) uma expressão que uns poucos sustentam ser uma referência ao jejum. Encontramos um apontamento no Novo Testamento, em Atos 27.9 e outro no Velho Testamento, em Isaías 58.3.

      Em alguns momentos da história do Antigo Testamento há ordenanças para a realização de jejuns, como no tempo do profeta Zacarias, quando o quarto, quinto, sétimo e décimo mês eram requeridos (Zc 8.19). Contudo, as maiores referências são aos jejuns voluntários e pessoais, como em Davi (primeira ocorrência2Sm 12.22) suplicando pela vida do seu primeiro filho com Bate-Seba, por ocasião de seu pecado. jejuns eram proclamados em situação de calamidades públicas (Jr 36.9), em  meio ao povo de Israel (2Rs 25.3; Jr 52.6 etc.). — O farisaísmo do Novo Testamento também praticava o jejum duas vezes por semana. (Destaca-se que Jesus acentuou uma rigorosa crítica aos jejuns dos fariseus).

 

A Igreja Apostólica e o Jejum

      Nos documentos da Igreja e dos apóstolos encontramos algumas referência sobre o jejum. 

      Na Didaqué, um documento dos apóstolos, encontramos:

Antes de batizar, tanto aquele que batiza como o batizando, bem como aqueles que puderem, devem observar o jejum. Você deve ordenar ao batizando um jejum de um ou dois dias”.

    E, posteriormente, falando sobre a frequência e a distinção do jejum cristão ele também declara: 

seus jejuns não devem coincidir com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Porém, você deve jejuar no quarto dia e no dia da preparação.

       No documento de tradição Luterana de 1530 (séc. XVI), chamado Confissão de Fé de Augsburgo, há uma apologia contra a posição católico romana e suas doutrinas, que diz:

Os nossos são acusados falsamente de proibirem boas obras. Pois os seus escritos sobre os Dez Mandamentos bem como outros escritos provam que deram bom e útil ensino e admoestação a respeito de estados e obras cristãos verdadeiros, de que pouco se ensinou antes de nosso tempo. Insistia-se, ao contrário, em todos os sermões principalmente em obras pueris e desnecessárias, tais como rosários, culto de santos, vida monástica, romarias, jejuns e dias santos prescritos, confrarias, etc.

      E ainda:

Em tempos anteriores ensinou-se, pregou-se e escreveu-se que diferença de comidas e tradições semelhantes instituídas por homens servem para merecer graça e satisfazer pelos pecados. Por essa razão se excogitaram diariamente novos jejuns, novas cerimônias, novas ordens e coisas semelhantes, e nisso se insistiu com veemência e energia, como se tais coisas fossem culto divino necessário pelo qual se merecesse graça se a gente o observasse e como se sua inobservância constituísse grande pecado. Disso resultaram muitos erros perniciosos na igreja.

Em primeiro lugar, com isso se obscurecem a graça de Cristo e a doutrina da fé, que o evangelho põe diante de nós com grande seriedade, insistindo vigorosamente que se considere o mérito de Cristo como algo de grande e precioso e se saiba que a fé em Cristo deve ser posta muito acima de todas as obras. Por isso São Paulo batalhou com veemência contra a lei de Moisés e as tradições humanas, para aprendermos que diante de Deus não nos tornamos piedosos mediante as nossas obras, porém somente pela fé em Cristo, que alcançamos a graça por amor de Cristo. Essa doutrina extinguiu-se quase que por completo com isso de se haver ensinado a merecer graça por jejuns prescritos, distinção de manjares, vestimenta, etc.

E é bem crível que alguns bispos foram enganados com o exemplo da lei de Moisés. Daí provieram tão inumeráveis ordenações: que é pecado mortal fazer trabalho manual em dias santos, ainda quando não haja ofensa a outros; que é pecado mortal omitir as horas canônicas; que alguns alimentos poluem a consciência; que jejum é obra com que se reconcilia a Deus;...

 

      O jejum na vida cristã

       Observemos alguns pontos pelo prisma do Novo Testamento:

       — Houve a prática do Jejum  por Jesus e por seus apóstolos, ainda que pouquíssimas vezes.

      — Não há uma determinação peremptória acerca da prática do jejum nas páginas do Novo Testamento como há no caso da “oração”.

      A oração recebe uma atenção meritória e especial, por ser um meio de graça. O verbo “orar” é recorrente e imperativo nas páginas do Novo Testamento. 14 de 18 são no Novo Testamento.

      Só há um caso no Velho Testamento sobre jejum (Es 4.16), e não é uma normatização, é um pedido particular. NOTE que a ocorrência está fora do Pentateuco.

      Ao falar sobre jejum, Jesus esclarece e dá algumas recomendações em Mateus 6.16-18:

 16 Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. 17 Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, 18 com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. 

Um primeiro destaque sobre o verdadeiro jejum é sobre não criar imagens superficiais de santidade: “…não vos mostreis contristados como os hipócritas…”. — No período do profeta Isaías (basta ler o livro para descobrir logo nos primeiros dez capítulos) Deus se mostra indignado com o culto ritualisticamente perfeito, libações corretíssimas, mas vazias de suas essências. E dentre essas ofertas estava o jejum voluntário. Como hoje, muitos pensavam que o jejum poderia ser usado como forma de demonstrar santidade e espiritualidade. Esqueceram-se de seu caráter individual! Assim, criam que quanto mais fosse divulgado, quanto mais fosse demonstrado sofrimento na prática do jejum, mais seriam reconhecidos como ofertantes e povo de Deus. Observe o que Deus diz a respeito disso: “Eis que jejuais para contendas e rixas e para ferirdes com punho iníquo; jejuando assim como hoje, não se fará ouvir a vossa voz no alto. Seria este o jejum que escolhi, que o homem um dia aflija a sua alma, incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si pano de saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aceitável ao SENHOR?(Isaías 58.4,5).

 

Um segundo destaque sobre o verdadeiro jejum é que este aproxima criatura e Criador. Proporciona comunhão íntima e secreta com Deus. Diz o texto: “...quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”. Erroneamente, as pessoas acreditam que a separação ou a aproximação de Deus é uma questão geográfica, uma distância espacial. Mas, o que realmente nos separa intransponívelmente de Deus é uma questão jurídica, uma questão legal, uma questão penal. Em toda a Bíblia, o pecado e a corrupção do homem é o representante do afastamento, enquanto que a santidade e a purificação são os representantes da aproximação, da comunhão perdida.

      O profeta Isaías também insistiu neste ponto, quando enfatizava que o abandono do pecado fazia parte da prática do verdadeiro jejum. “Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante?(Isaías 58.6,7).

      “...teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” — Louvado seja o Senhor! O Deus fiel, cujas promessas são inquebráveis. — O jejum é uma oportunidade também para comunhão, para o secreto com Deus, isto é, momentos só entre o jejuante e o Senhor. Momentos ímpares de acalanto espiritual, embalados nos braços do Pai, no qual nenhum jejum é visto como sacrifício, mas como uma doce e gostosa oportunidade de ser visto por Deus, e apenas por ele, tornando uno os corações. Um jejum assim, jamais permitira que o jejuante saia do jejum do mesmo tamanho que entrou.

      Ainda que reconheçamos a possibilidade de jejuns públicos, a comunhão é primeira e essencialmente pessoal, e, a partir daí, comunitária.

      As bênçãos provenientes de Deus na experiência do jejum estão inerentes a própria prática. Pense: investir tempo em nossa vida espiritual, sensibilizando-a às realidades celestiais pelo desligamento das coisas materiais; só isso já é uma bênção e agrada o coração de Deus. Deus nos abençoa! Do jeito dEle, como Ele quer, mas é sempre bênção que nos agrada, pois o filho as chamou de “recompensas”.

 

Concluindo, mas não finalizando

      É salutar considerar o jejum na vida cristã. E quanto aos modismos e invenções humanas, devemos ser sábios. É no mínimo curioso notar que não há uma normatização explícita na prática do jejum, no Novo Testamento. A prática era comum e advinda tradicionalmente do Velho Testamento sem muitas discussões (Atos 27.9). A prática do jejum deve ser considerada com moderação e discernimento espiritual, para que não haja danos físicos como vimos e nem espirituais. Não devemos ver o jejum como um elemento de sacrifício, barganha ou meio de se manipular o governo de Deus. Isso porque, as Escrituras Sagradas, quando fala da doutrina dos meios de graça, só engloba a oração, a pregação da Palavra e os Sacramentos, como instrumentos ordinários de promoção de vida espiritual. O jejum deve ser compreendido e praticado à luz da Bíblia, e não sob opiniões populares; e, se for a vontade do crente, praticado com santidade, tremor e temor diante de Deus. Somente a Bíblia pode nos dar a dimensão perfeita do jejum bíblico, para que não haja mau entendimento dos valores meritórios de Cristo e das comunicações graciosas de Deus.

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Consultas Bíbliográficas

Schlesinger H. e Janina Schlesinger Yom Kuppur. Metzger, B. Manning Dicionário da Bíblia: As pessoas e os lugares. Vol. 1. Ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2002. 383p.

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Terrin, A. Natale. O Sagrado Off Limits: A Experiência Religiosa E Suas Expressões. São Paulo: Loyola, 1998. 280p.

Livro dos Mórmons.

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Strong J. Dicionário Bíblico Strong. São Paulo: SBB, 2002.

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