Obsessão Amorosa

09/12/2011 16:35

Obsessão Amorosa

 

Chave: Obsessão Amorosa. Fases Psicossexuais. Neurose Histérica

 

      John D. Moore em seu livro, “Confundindo amor com obsessão” (Confusing Love With Obsession), é quem revela pela primeira vez o tema divulgado em 1761.

      Como algo ainda em construção, o conceito de personalidade é definido basicamente, como dizem alguns: a eficiência que um indivíduo tem para produzir reações positivas nas pessoas, ou é o conjunto de características internas que causam um comportamento e que é proveniente de experiências individuais de cada um, como a impressão que o indivíduo causa nas outras pessoas.

      Vejamos, portanto, o que viria a ser a personalidade:

 

1. Personalidade

 

      É no meio sociocultural que se desenvolve o sujeito – ser humano –, mas também a sua personalidade. No começo da vida do indivíduo sua personalidade começa a ter nuances. Vejamos alguns conceitos de psicólogos conhecidos que colaboraram para a formação de um conceito:

 

Gardner conceitua personalidade como sendo a eficiência em produzir reações positivas em diversas pessoas e em diferentes situações; mais também a impressão que o indivíduo causa em outras pessoas, podendo-se falar em “personalidade agressiva”, “personalidade passiva” e “personalidade tímida”. (HALL E LINDZEY, 2000). — Gardner é mais um dos mais populares, devido ao conteúdo, pois consegue conceituar de uma forma simples e ao mesmo tempo totalizadora.

 

Alport, segundo uma concepção biossocial e biofísica: o biossocial corresponde ao popular, na qual a personalidade é compreendida nos termos de importância social: — Quando se diz que o indivíduo é caridoso; já a concepção biofísica, apresenta a personalidade sob um aspecto aparente, podendo estar ligada a qualidades específicas do indivíduo: — Quando se diz que o sujeito é alegre. (ALPORT, 1966).

 

      Personalidade, portanto, como um conjunto de características que são constituídas de acordo com o meio social e as experiências de cada um; é o que ordena o comportamento do indivíduo; pode ser definida como um conjunto de características psicológicas que determinam a forma de pensar e agir do indivíduo.

      Cada um concebe a sua personalidade de forma particular. Temos várias teorias psicológicas que explicam a personalidade: a psicanálise, a gestalt terapia, o humanismo e o behaviorismo. Para a Freud a personalidade é formada aos quatro ou cinco anos da criança. Piaget entende mais este prazo, definindo-o somente entre os oito e doze anos de idade.

 

2. A personalidade e sua estrutura

 

      Freud compõe a personalidade por três estruturas: id, ego, superego — cada uma com a sua função. Calvim (2000) afirma que ela integram e contribuem para o perfeito funcionamento do aparelho psíquico, hierarquicamente iguais.

      O sistema original da personalidade é o id, formado pelos impulsos herdados desde o nascimento, inclusive os instintos (não possui noção da realidade objetiva). O id não suporta aumento de energias, é regido pelo princípio do prazer que busca manter um nível de conforto constante. Sempre que o id está em desconforto devido ao aumento de tensão, uma baixa energia e entra em ação. (HALL & LINDZEY, 2000).

      O Principio da realidade é quem rege o ego e sua função é secundária. Ele é a parte racional da personalidade, controlando quais os instintos serão satisfeitos e de que forma serão satisfeitos. O ego objetiva manter a vida do indivíduo e garantir a reprodução da espécie, intermediando entre as exigências pulsionais do organismo e as condições do ambiente. (HALL & LINDZEY, 2000).

            Carl Jung diz que o ego é o centro da consciência fornecendo um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes e contrapõem-se a qualquer coisa que ameace essa consistência. Desta forma, Jung sugere que o ego é o elemento central de toda psique e chegamos a ignorar sua outra metade, o inconsciente. (NICOLAU, 2007).

            O superego é uma espécie de “arma moral” da personalidade. Nele se emprega os padrões morais da sociedade, sendo uma de suas principais funções a preocupação em decidir se alguma coisa é certa ou errada. Sua função é lutar contra os desejos impróprios e procurar sempre a perfeição.

      Em seu livro Hall e Lindzey afirmam:

 

As principais funções do superego são inibir os impulsos do id, particularmente os de natureza sexual e agressiva; e persuadir o ego a substituir os alvos moralistas por alvos realistas; e por fim ele dizia que o superego tinha por função lutar pela perfeição, ele faz do mundo o reflexo de sua imagem. Ao contrário do ego o superego não somente adia a gratificação do instinto, mas ele tenta bloqueá-lo permanentemente. (HALL & LINDZEY, 2000, p.28).

 

3. Psicossexualidade

 

            Freud define que há um padrão de desenvolvimento de caráter universal e necessário no para a saúde mental, que é o desenvolvimento psicossexual do indivíduo. Os estágios psicossexuais são divididos em quatro fases: fase oral, fase anal, fase fálica e a fase genital. Segundo Freud, os três primeiros estágios psicossexuais acontecem nos primeiros cinco anos de vida, depois se segue o chamado período de latência, onde há uma estabilidade (onde nada acontece) após esse período, na adolescência, começa outra fase, a genital, e essa percorre por toda a vida adulta. (HALL & LINDZEY, 2000).

            Na fase oral (recém-nascidos), todo prazer da criança encontra-se na cavidade oral, a priori para satisfazer a fome. Posteriormente, torna-se uma satisfação sexual. Um exemplo disso é a chupeta: ela não satisfaz a fome, ela satisfaz o impulso sexual. (FREUD, 1905).

            Gardner (2000) refere-se a fase oral na qual comer é a principal fonte de prazer produzida pela boca, pois comer envolve estimulação tátil dos lábios e da cavidade oral. Na aparição dos dentes, a boca é usada para comer e mastigar, e estes são os protótipos de muitos traços de caráter que podem aparecer mais tarde.

            Na fase anal (3 a 4 anos) o prazer sexual é levado para a região do ânus. Esta se subdividiu em duas fases (Freud): a primeira que é de expulsão, aonde o prazer vem da expulsão dos excrementos, e a segunda que é a de retenção, onde o prazer advém do acúmulo de fezes. (FREUD, 1905).

            Para Hall e Lindzey (2000), uma mãe muito rigorosa e repressiva em seus métodos pode gerar na criança a retenção das fezes, isto é, constipar-se. Em casos mais graves, a criança pode adquirir um caráter retentivo. Ela pode tornar-se obstinada e avarenta.

            A fase fálica (3 a 5 anos) o prazer vem dos órgãos genitais: o menino possui a satisfação de possuir (segurar) o pênis (e por este a angustia da castração) e a menina sofre pela inveja do pênis. (FREUD, 1905).

            Para Hall e Lindzey (2000), na fase fálica ao mesmo tempo em que ocorre o desenvolvimento das sensações sexuais ocorre o aumento da agressividade associada ao funcionamento dos órgãos genitais. É nessa fase que ocorre o prazer da masturbação, e um investimento sexual nos pais, o que resulta no complexo de Édipo.

            Após os três primeiros estágios, a criança passa pelo período de latência, na qual acontece uma luta constante contra a masturbação e as fantasias ligadas a esta, por causa do sentimento de culpa. (HALL & LINDZEY, 2000).

            A quarta fase é a chamada fase genital, que ocorre após o período de latência. O adolescente volta a ter as fantasias sexuais e junto com ele o temor a castração. Isso piora nas meninas com achegada da menarca. A principal função biológica dessa fase é a reprodução. (HALL &LINDZEY, 2000). É na fase genital que vai se manifestar a atração sexual, a socialização, a atividade de grupo, o interesse profissional, a preparação para o casamento e a preocupação em constituir família; o objetivo desta fase é proporcionar estabilidade e segurança psicológica para o indivíduo.

 

4. Análise psicanalítica da Obsessão Amorosa

 

             Um dos tipos de neurose histérica é a obsessão amorosa, também conhecida como uma psiconeurose de defesa na qual a pessoa afetada é totalmente dependente emocionalmente não de um parceiro, mas da relação obsessiva em si. Luchesi diz que ele enxerga na pessoa amada um ideal de relacionamento que só existe para ele. Assim, podemos pensar que a obsessão amorosa é diferente do amor em si. (LUCHESI, 2007).

 

No início, Sigmund Freud dividiu os transtornos emocionais, que ele então chamava de psiconeuroses, em três categorias psicopatológicas: as neuroses atuais, as neuroses narcisistas e as neuroses transferenciais, onde se enquadra a histeria (Zimerman, 1999); segundo ele:

 

A histeria é uma neurose complexa caracterizada pela instabilidade emocional e que tem seu início à partir de lembranças reprimidas que tem uma forte intensidade emocional, sendo que a lembrança desse trauma e sua catarse era o caminho para a cura. (ZIMERMAN, 1999, p.207-208)

 

            Green (1974) destaca o aspecto defensivo da histeria. O caráter exibicionista e histriônico, comum do histérico, o protege contra suas depressões, isto é, por trás “dos escândalos” o histérico possui baixa auto-estima, é extremamente frágil e instável.

            Uma característica da neurose histérica é o não controle do ego. A neurose histérica ocorre com mais freqüência nas mulheres, já que estas apresentam uma maior complicação no desenvolvimento sexual devido ao sentimento de inveja do pênis. O indivíduo histérico se fixou na fase fálica, mas com alguns componentes da fase oral.

            Para Freud (1906) citado por Zimerman (1999), a histeria pode ser de dois tipos: conversiva – há sintomas físicos – e dissociativa – o estímulo é sentido de forma tão intensa que quebra a desfuncionalidade da mente, levando a pessoa a atos descoordenados da realidade. Percebe-se que a obsessão em si é uma doença que surge de uma de uma fixação da fase fálica, mas que o ambiente em que esta pessoa cresceu influencia muito.

 

Freitas (2008) diz:

As obsessões estão relacionadas à ansiedade criada em resposta a uma situação muito estressante, esmagadora e dolorosa. Uma frustração amorosa, uma família desestruturada, escola ou ambiente de trabalho nocivo ou ameaçador podem causar um excesso de ansiedade ou a pessoa pode ficar comprometida emocionalmente e tentar buscar uma saída para fugir desta realidade.

Devido às necessidades básicas de amor, assistência e aceitação que foram negados, a pessoa viaja para o mundo das obsessões para evitar a sensação de ansiedade e privação. A necessidade obsessiva cria mecanismos e estratégias para seduzir o outro, originando uma atração fatal que busca a possessão como forma de incluir o outro em sua própria vida, tentando o máximo de controle, pois a falta deste irá provoca intensa dor. (FREITAS, 2008)

 

            O obsessivo amoroso tem uma preferência em ser amado ao invés de amar; torna-se uma pessoa altruísta, inconscientemente procura um parceiro pouco disponível e está disposto a mudá-lo através do seu amor. O obsessivo amoroso é dependente do parceiro e da dor emocional que esse amor lhe proporciona; ele enxerga um relacionamento ideal que só existe para ele. A pessoa que sofre de obsessão amorosa possui uma idéia fixa de poder e domínio sobre a outra pessoa, além de ter uma forte tendência a se fingir de vítima, necessitando assim de dó e de atenção. (MELO, 2008)

            Na histeria, as idéias reprimidas ficam inalteradas no inconsciente, mas, mesmo assim, provocam influência na personalidade do indivíduo. O complexo de Édipo juntamente com os impulsos provenientes da fixação da fase anal será a base para os sintomas da neurose obsessiva. O comportamento do neurótico obsessivo é contraditório, devido à mistura do complexo de Édipo com os impulsos anais tornando-os ora bondosos, ora cruéis. (ZIMERMAN, 1999)

            Freud afirma que nas Neuroses Obsessivas, através dos sintomas, o Eu obtém uma satisfação narcísica. Os sintomas do neurótico obsessivo bajulam seu amor próprio, fazendo sentir-se melhor que outras pessoas, por se considerar mais limpo ou especialmente consciencioso. Tudo isto resulta no ganho proveniente da doença que se segue a uma neurose. Freud completa “A formação de sintomas assinala um triunfo que se consegue combinar a proibição com a satisfação... a fim de alcançar essa finalidade muitas vezes faz uso das trilhas associativas mais engenhosas” (FREUD, 1926, p.93-122).

            Nas neuroses ocorre à fuga da realidade onde há uma idealização do objeto, por isso, o neurótico obsessivo se parece mais com o psicótico do que o histérico. Apesar da idealização, no fundo o individuo tem a consciência do que é verdadeiro e do que é falso

            Para Zetzel (1968) existem quatro tipos de histerias: as “verdadeiras” ou “boas” histéricas, que atingem a condição de casar ter filhos com bom desempenho profissional e que se beneficiam com a psicanálise; outras também “verdadeiras” com casamentos complicados, geralmente com natureza sadomasoquística, que não conseguem manter por muito tempo um satisfatório compromisso com a análise; aquelas pacientes que manifestam sintomas histéricos, que lhes confere uma fachada de pessoas histéricas, mas que, na verdade, encobre uma subjacente condição bastante depressiva, sendo que essas pessoas não se completam em nenhuma área da vida; e as “pseudo-histerias” presentes em personalidades muito mais primitivas, sendo que a sua extrema instabilidade emocional justifica a antiga denominação “psicose histérica”.

 

O tratamento clínico para obsessão amorosa, num viés psicanalítico, vai depender do analista; Pois cada terapeuta tem sua forma de tratar desse transtorno, uns com a hipnose, outros com terapia.

 

Segundo Zimerman (1999, p. 213-214) diz que:

A atividade interpretativa do analista deve ficar centrada nos seguintes aspectos: usar a técnica de “confrontação”, levando o paciente a confrontar se há similaridade de como ele se vê o de como os outros os vêem; utilizar a técnica de uma imaginária “dramatização verbal”, onde a paciente troca de lugar, papel e função com outras pessoas do seu convívio; trabalhar com as funções conscientes do ego, ou seja,como ele percebe, pensa, discrimina e comunica seus sentimentos de amor e ódio.

Diante de todos os conceitos, eles trazem à tona a aprendizagem sobre o “Normal” e o patológico, tendo em vista o modelo que foi recebido da sociedade, da cultura, das instituições em que o indivíduo está inserido, porém o indivíduo tem a chance de refletir e tirar suas próprias conclusões a respeito da obsessão amorosa em si.

 

Referências
JOHN B. CAMPBELL; CALVIN S. HALL ; GARDNER LINDZEY, 2000,Teorias da Personalidade. Ed. Artmed.

DAVID E. ZIMERMAN, 1999, Fundamentos Psicanalíticos, teoria, técnica e clínica.Porto alegre; Ed. Artmed.

MELO. CIDA, 2007, Neurose Histérica. Teresina, disponível em < http://artigos.psicologado.com/abordagens/psicanalise/neurose-histerica >Acesso em: 03 de junho de 2010.

HALL – LINDZEY; JUNG, C. G.; Teorias da Personalidade. 18ª edição; Ed: e.p.u

OTTO FENICHEL, 2000. Teoria Psicanalítica das neuroses; Terapêutica Psicanalista na neurose obsessiva; Ed. Atheneu

Fonte: Obsessão Amorosa - Psicanálise - Abordagens - Psicologado Artigos http://artigos.psicologado.com/abordagens/psicanalise/obsessao-amorosa#ixzz1g3t97ILV.

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